O RETORNO

Portugal é como voltar ao útero materno



Guimarães

A curta trajetória como correspondente internacional do Tyrannus está chegando ao fim. Que pena! Foi muito agradável dividir com outras pessoas as minhas impressões e vivências nesta cidade incrivelmente sedutora que é Paris. A minha passagem pelo Marrocos foi também uma expêriencia única, no sentido de conhecer e apreciar uma cultura tão diversa dos nossos padrões ocidentais. Inshallah eu possa voltar lá para ver o brilho das estrelas nas escuras noites do deserto marroquino.

Dizem que naquela imensidão, o firmamento está mais próximo de nós e nós mais próximos de Deus, independente da religião que escolhemos, dos profetas que seguimos ou dos livros sagrados que adotamos. Graças a Deus, Ele se coloca (literalmente) acima dessas questículas humanas.

Por último quero me referir à Portugal, onde junto com Felipe e Mônica passei uma semana , visitando as cidades de Porto, Braga, Guimarães e Aveiro. Amamos todas, sem excessão. Ir à Portugal, de uma certa maneira, é como voltar ao útero materno, ao balanço do berço, ao macio de rendas e bordados, ao colo morno do afeto , ao aconchego do lar . Um estar entre os seus . A afabilidade, a cortesia , eu diria até, a fidalguia com que nós , brasileiros somos tratados confirmam mais ainda essas sensações .

É uma gente incrível que está a passar momentos dificílimos com a crise economica. Ficamos assustados com os indíces de empobrecimento da população, a falta de emprego, o atendimento à saúde, os problemas na educação (fala-se na demissão de 10 mil professores ) e outros setores básicos. Uma grande e polêmica discussão nacional está a acontecer em todos os lugares: no âmbito do governo, nos partidos políticos, nas midias, nos bares, restaurantes, o assunto é um só . Como salvar Portugal do caos? Se dependesse de mim…

Uma das mais importantes cidades históricas do país, Guimarães possui cerca de 159 mil habitantes. É considerada a “Cidade Berço” pelo papel fundamental que teve na construção da nacionalidade portuguesa que remonta há mais de um milênio. Patrimonio Cultural da Humanidade, tem o seu centro histórico, belamente preservado . Perder-se por suas vielas e becos, atravessar seus amplos largos, cada um mais bonito que o outro, entrar em qualquer restaurante e fartar-se de uma cozinha tradicional verdadeiramente saborosa, na verdade, não é perder-se mas achar-se. Em todos os sentidos.

É uma lástima que a nossa Chapada dos Guimarães, que recebeu o nome em homenagem a essa encantadora cidade, não mereça de seus governantes o mesmo apreço e cuidados. Eleita como Capital Européia da Cultura em 2012, Guimarães poderia ser uma fonte inspiradora para os programas e projetos , tão necessários e urgentes à comunidade chapadense. Que o diga, minha amiga Iolanda Guimarães, cuja familia veio de lá e se instalou na Chapada desde a sua fundação.
 

Porto

A lógica portuguesa é uma coisa à parte. Estacionamos o carro, próximo a um restaurante de frutos do mar, na cidade de Porto . Logo apareceu um senhor que se prontificou a cuidar do carro. Acostumados a levar cano de guardadores em Cuiabá - que de guardadores não tem nada, pois desaparecem assim que voce dá as costas – perguntamos com uma certa preocupação se teriamos que pagar adiantado. Ele disse que não . - E o senhor estará aqui quando voltarmos? O homem abriu um sorriso : - Se eu cá não estiver, cá não estou ! Precisava falar mais? Claro que não.

Enfim, o que era doce acabou-se, pelo menos por estas bandas da velha Europa. Estou voltando. E voltar para o nosso próprio país tem também um sabor inigualável pois ser estrangeiro não é fácil, há os seus tropêços que não são poucos. “Valeu a pena ? Tudo vale a pena se alma não é pequena…” como diria Fernando Pessoa.
E vou logo avisando, cantando aquela música linda do Mauricio Tapajós e Paulo César Pinheiro : Pode ir armando o coreto / e preparando aquele feijão preto / eu tô voltando … embora prá minha alegria os tempos sejam outros e eu não esteja voltando de um exilio imposto pela ditadura militar. O que eu dei mesmo foi só uma saidinha . Por puro gosto. Ora, pois !


*Gloria Albues é cuiabana e colabora com o Tyrannus por esse mundão afora

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