ENTREVISTA

De como a cultura foi...



1)Luís, antes de entrar pra vida acadêmica, você rodou por aí fazendo artes do jeito que dava. Vou começar pedindo pra que resuma essa parte de sua trajetória, mas abra a explanação expondo fatos ou circunstâncias que você acha que foram fundamentais para que trilhasses pelos caminhos da arte.

Costumo dizer que a família forma leitores, a escola tem se mostrado insuficiente para fazê-lo, o que a torna mais incompetente ainda quando o estímulo não vem de casa. Fui criado lendo gibis, antes mesmo de conhecer os clássicos da literatura brasileira e universal. Comecei a gostar de arte muito cedo, praticá-la também, com um ambiente favorável dentro de casa. Mas a formação cultural e artística viria com um bando de loucos nos anos 1980 – Caximir, depois de uma investida em teatro de bonecos sob a batuta de Maurício Leite. – Pé de Moleque. E lá começou o aprendizado, com Lorenzo e Fátima, Chico Amorim, Mara, Maurim e outras feras.

No Caximir vivenciamos um laboratório fantástico; o fazer artístico desembocava naturalmente, sem muito esforço e o cenário cultural da “cuiabália” favorecia o acontecimento das performances que se estendiam pelos blocos da UFMT, pelos bares da Rua 1 e adjacências. “Quase 84”- e muita água já havia rolado. A Livraria Janina patrocinava nossos eventos, divulgava em nosso mass-media da época – “Saco De Gatos e Outros” e era lá onde tomávamos contato com as publicações contemporâneas. Lembro do sucesso que foi a série Cantadas Literárias”, da Editora Brasiliense que nos trouxe as frutas mofadas do Caio Fernando Abreu, a poética de Ana Cristina César e outras barbaridades, daqui e de outras bandas, como por exemplo os beatniks americanos como Kerouac, Corso, Solomon e Ginsberg.

Fui de mala e cuia para o Rio de Janeiro na sexta-feira de carnaval de 1988. Na bagagem mais roupas de teatro do que para uso comum; resultado: virei vendedor de enciclopédia. Uma vendida em três meses de trabalho. Fiz pesquisas de mercado por um tempo e consegui montar um patrimônio de 300 livros para o início de outra atividade. Montei um sebo no saguão da faculdade de letras da UFRJ, local em que trabalhei por dois anos. Nesse período entrei em contato com a farta bibliografia do curso de letras. Colecionei a obra completa de Clarice Lispector, na época esgotada, e algumas pérolas de Nelson Rodrigues. Atuei junto à Federação de Teatro da região dos Lagos. Sediada em Cabo Frio dentre outras atividades também na baixada fluminense. Em contato com a poetada carioca participei de muitos eventos e viajei por 97 cidades de 17 estados brasileiros entre 1993 e 1994 – incluindo Cuiabá. Foram dois anos vivendo de poesia, de bar em bar, faculdade em faculdade. De Porto Alegre a Fortaleza pelo litoral e depois pelo interior de Minas Gerais e Mato Grosso.

2)E a opção pelo mundo acadêmico... Quando ela surgiu e como foi isso? Fale um pouquinho sobre seu ingresso na universidade e também sobre os temas que escolheste para o mestrado e o doutorado.

A arte sempre morou em mim, embora não tenha conseguido viver de sua lavra. Mas considero-me um artista que virou professor. Depois de ter largado os cursos de Engenharia Florestal (em 1983) e o de História (1984) passei treze anos com o discurso de que não precisava de diploma de nível superior até rever meus conceitos e ingressar no curso de letras da UFMT, em 1997. Os conhecimentos adquiridos com Clarice e Nelson Rodrigues balizaram minha monografia de graduação Uma flor de plástico no asfalto selvagem e parti direto para o mestrado em história, uma vez que ainda não havia mestrado algum no estado de Mato Grosso na área de letras; e isso foi em 2002.

Fazia pouco tempo que recebera um livro enviado por meu irmão que tratava de narrativas que se passavam na região centro-oeste do Brasil. E um deles intitulava-se Corá, de José de Mesquita. A publicação era de 1959, mas trazia a informação de que o conto fora publicado inicialmente no ano de 1932 na revista Nova, de São Paulo. Comecei a me interessar por aquele autor e acabei lendo praticamente tudo o que foi publicado por ele. Concluí a dissertação a que dei o nome de Rica/bendita; pobre/mal-dita: as cores da mulher em José de Mesquita (1919-1961). Nesse período de conclusão do mestrado nasceram meus dois filhos, as grandes obras de minha vida.

A continuação dos estudos em nível de doutorado se deu por outro caminho. No natal de 2006 , morando em Juína, resolvi visitar uma grande amiga em Sinop e fui até lá de moto; Se é que se pode chamar uma kripton, da Yamaha, de moto. É uma motoneta que me levou em período de chuvas por um caminho repleto de dificuldades mas que gerou uma viagem inesquecível. Luzia Oliva é minha conhecida desde 1998 quando estive em Sinop divulgando Matrinchã do Teles Pires, novela de ficção que se passa no norte de Mato Grosso nos anos 1970. Luzia fez mestrado na UNESP de São José do Rio Preto – SP sobre meu livro e à época, quase doutora, incentivou-me a tentar o doutorado em Rio Preto. Voltei a Juína com aquilo na cabeça, era a minha hora de dar esse salto. Comprei um notebook, os livros que ainda não possuía e comecei os estudos. O ano de 2007 foi de intensa preparação e ao final do ano veio a aprovação.

A oportunidade de resgatar o interesse por uma autora fantástica e continuar trabalhando as relações entre a literatura e a história, trouxeram-me ao encontro de Ana Miranda. Apaixonado pelas suas narrativas que revigoram a imagem de muitos autores brasileiros, dediquei-me por quatro anos e meio a incessantes leituras sobre romances históricos e coisas afins para concluir a tese Historiografia literária e formação do cânone: Ana Miranda, Augusto dos Anjos e Olavo Bilac, defendida em agosto de 2012.

No momento dedico-me a uma pesquisa envolvente, do ponto de vista sentimental e mesmo documental. Estou em um mergulho profundo na poesia de Antonio Sodré de Souza Neto. Para isso mudei-me para o bairro Pedregal, desde agosto do ano passado para ficar próximo da família, recriar alguns climas para ambientação de um futuro projeto de romancear a vida do poeta. Durante dois meses e meio escaneei algo em torno de duas mil páginas manuscritas pelo poeta que agora examino com calma, juntamente com minha amiga Maurília Walderez do Amaral, à luz das relações entre a filosofia e a poesia. Benditos sejam os frutos dessa semeadura.

3) Nesta altura da conversa, você poderia falar um pouco sobre como essas experiências culturais (no campo das artes) se desdobraram. Que tal começar comparando (ou tentando comparar) os dois tipos de vivências (nas ruas e na academia) e dizer como essas coisas impactaram na formação desse Luiz Renato (maduro) que você é hoje...

A arte sempre falou mais alto, mas a sobrevivência no meio é muito difícil. É preciso fazer muitas concessões, engolir sapos gigantescos, ver gente incompetente se locupletando de recursos públicos. Tornei-me uma pessoa cética quanto a leis de incentivo, fóruns de cultura, mecenatos da pós-modernidade, distribuição de recursos e manobras fraudulentas para eventos de qualidade discutível. Conheço leis municipais de incentivo com mecanismos de controle sobre a produção, que imprimem um selo de qualidade em suas produções. Infelizmente por aqui essa moda não pega. O rasqueado não virou moda nacional, Liu Arruda levou para outra vida seu estilo crítico de ridicularizar o alto clero, mas deixou lições e farta descendência. A viola de cocho não é totalmente nossa, já dizia Antonio Carlos Lima há algum tempo em música de sua autoria gravada pelo Caximir; e os maniqueísmos estão por aí nos gabinetes oficiais dos que comandam a cultura do estado de Mato Grosso.

Acredito em uma economia de mercado que envolva os produtos e aparelhos culturais, mas que respeite o gosto popular e não confunda cultura de massa com artefatos de gosto duvidoso. O povo merece arte de boa qualidade, como educação respeitosa e alimentos sem agrotóxicos. Chega de toxinas em cartaz nos cinemas, teatros e páginas impressas. Abaixo os espetáculos caça-níqueis e tudo o que deforma ou molda de maneira irrisória a cultura de um povo. Ainda seremos responsabilizados um dia por essa instantaneidade cultural que transforma qualquer arremedo cultural em produto artístico desrespeitando a capacidade popular de formar seu próprio gosto.Sempre investi em arte quando me decepcionava com a educação e em educação quando me decepcionava com a arte. O resultado disso foi um artista que virou professor e trocou de palco, apresentando-se para as mesmas plateias por mais tempo. Já plantei árvore, publiquei livro, tenho dois filhos. Não trato meus produtos culturais, intelectuais e artísticos como filhos, são crias paridas em meio ao caos, caldeirão de bolhas quentes e traços distintivos de uma inequação existencial da qual sequer imagino o valor de X.

Minha experiência acadêmica começou com a engenharia florestal – depois de um ano e meio sem compreender tais valores optei pelo ipisulone (rs!); tentei a história, mas somente depois de treze anos praguejando contra o ensino superior fiz letras, formando-me aos trinta e nove anos de idade, mestrado em história aos quarenta e três e finalmente o doutorado, concluído aos cinquenta. Estudar é muito bom, nunca é tarde. Meu pai formou-se em jornalismo na UFMT com sessenta e nove e minha mãe é uma das fundadoras de uma associação mato-grossense de professores de francês, nada mal para quem nasceu na roça e por lá viveu durante algum tempo. Educação vem de berço, diz o ditado: é vero!

Sou ator profissional, embora não atue profissionalmente; gosto de literatura, mas quando escrevo sério é em prosa. Poesia só levo a sério a dos outros, como a de Lucinda Persona e Aclyse de Matos; Antonio Sodré, Marta Cocco e Antonio Carlos Lima. A minha é brincadeira, mera distração e jogos de palavras.

4)Escrever e publicar são projetos que habitam nossas cabeças. Quer dizer, te incluí nessa nem sei por que, mas, talvez não esteja errado. De uma forma ou de outra, te peço agora pra falar sobre isso. Sei do “Matrinxã do Teles Pires”, aquele seu livro quase antigo. Você se dedicou a uma vida acadêmica, estudou e leu bastante, imagino. Concluiu seu doutorado. Não planejas ou preparas um novo livro? E fale também sobre o que te levou a escrever o primeiro. Alguns escritores dizem que escrevem por causa das inquietações que sofrem, mas escrever deve ser algo que brota por motivações particulares e não penso ser correta a prática da generalização. E aí...?

Dei conta de que escrevia por volta dos dezoito anos de idade. Compunha sonetos inspirado por Vinicius de Moraes, porta de entrada da poesia. Depois vieram outros; ficaram Manuel Bandeira e Augusto dos Anjos como preferências. Publiquei alguns livretos de poemas. Em 1993 lancei Cardápio Poético para vender em bares, caracterizado de garçom. Esse personagem perambulou por 97 cidades de 17 estados brasileiros. Minhas primeiras publicações eram tributárias da estética marginal dos anos setenta carioca/paulista. Mimeógrafos eletrônicos, antes do past-up nas máquinas IBM e afins. Muitos experimentos.

Matrinchã do Teles Pires nasceu de uma mentira. Criei essa história para vender poemas em salas de aula do curso de letras em faculdades do sul do país. Depois de três meses desenvolvendo o tema de maneira lúdica (rs...) – exercitando a sobrevivência, havia acumulado bastante informação sobre migrações internas, um histórico da pequena propriedade no Brasil; imigrações italiana e alemã; A expansão agrícola; colonização do oeste catarinense, guerras do Contestado, Farrapos, governo Vargas, ditadura militar etc , parei para escrever algo. Tudo o que acumulei de conhecimento distribuí por alguns personagens que estabelecem relações sociais que vão narrando acontecimentos. Flor do Ingá é a continuação de Matrinchã, mas foi finalizado entre um mestrado, dois filhos e um doutorado e carece de uma revisão mais detalhada para trazer a público. Falar sobre Matrinchã passou a ser mais comum para Gilvone Furtado Miguel (UFMT), em suas disciplinas na região do Araguaia, Dante Gatto, na UNEMAT de Tangará da Serra e Luzia Oliva dos Santos na UNEMAT Sinop, autora de uma dissertação de mestrado na UNESP de São José do Rio Preto (SP) sobre o livro. Meu projeto mais imediato é a organização para publicação dos inéditos de Antonio Sodré, em fase de leitura e seleção.

5) E chegamos ao final da nossa entrevista “à prestação”. Está na hora de deixar a palavra livre pra você se expressar em torno do assunto que preferir e a intenção é completar o desenvolvimento da nossa conversa. E também vou sugerir que comente sobre aspectos como o direcionamento do jornalismo cultural que, na maioria das vezes, tende a destacar assuntos e pautas mais populares e que contemplem as preferências de um público leitor menos informado e alheio a aspectos da cultura como um fator que prepara e transforma as pessoas tornando-as cidadãs mais evoluídas e entendedoras deste mundão desemporteirado. Ou seja:não há responsabilidades e comprometimentos nesse sentido. Acho que algumas palavras opinando a respeito da gestão cultural pública cultural que vem sendo praticada nos últimos anos cairiam bem pra fechar nosso papo. Esses dois temas, em relação a Mato Grosso. Pode ser?

Quando você me indaga acerca do jornalismo cultural e de sua prática em Mato Grosso, como vejo a questão e o que destacaria, penso logo em Balzac; e em como ele definia a figura do jornalista, em As Ilusões Perdidas. A literatura brasileira de matriz burguesa nasce dos jornais, dos rodapés para os rapapés e avança do folhetim para a crônica de costumes. De Alencar a Machado de Assis, de Bilac, Emílio de Menezes, João do Rio, Lima Barreto a Moacir Scliar, Ignácio de Loyola Brandão, Ana Miranda, Lya Luft, Marcelo Rubens Paiva e muitos outros –filhos ou netos da ditadura.

Cuiabá está aí, na rede, meu peixe! Precisamos trabalhar para que as pessoas ampliem seus vocabulários, enriqueçam a interpretação dos textos variados que se apresentam nesse shopping a céu aberto em que se transformaram as cidades de hoje. Como Baudelaire, em suas prestidigitações, abismamo-nos com o cotidiano depauperado de parte da população em meio às grandes concentrações de poder e renda. Os espaços públicos privados de políticas transparentes e de longo alcance. Há a presença notória de alguns oásis em meio a todo esse caos. O Sesc Arsenal cumpre em parte esse papel com programações de bom nível cultural.

O TyrannusMalancholiccus veio ocupar um vazio existente na rede: há muitos blogues variados e sites de notícias, mas o jornalismo cultural merece mais. Há bares e casas noturnas para todos os gostos e bolsos. Gosto de pensar na ideia de que estaremos salvos quando Chico Buarque (o filho de Sérgio Buarque de Hollanda) e Machado de Assis (o verdadeiro bruxo) forem populares em todo o país.

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Agenda Cultural

  • Em Cartaz:
  • Feira do Vinil
  • Dia: 23 de março
  • Local: Casa Cuiabana
  • Informações: 99225-6204
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