SÊNECA

Felicidade, moral e ética



Com 103 páginas em edição bilíngüe (português e latim) o livro “Sobre a vida feliz”, de Sêneca, foi lançado pela editora Nova Alexandria, com tradução de João Teodoro Marote. Vemos nesta obra a força do pensamento de um autor que defende o ideal da humanidade; a posição do sábio perante a ética; o alcance do conceito de natureza aplicado ao homem e a relação do homem com a divindade. Por tudo isso, esse pequeno tratado filosófico de alcance perene e universal, não se destina apenas às pessoas da época em que foi escrito, mas é uma lição com ensinamentos profundos que servem aos homens de nosso tempo.

Nesta obra o autor dá algumas dicas de como fazer para se ter uma vida feliz. Segundo ele, não é fácil conseguir a felicidade, uma vez que, quanto mais ardentemente cada um a procura, se erra o caminho, mais dela se distancia. Assim, Sêneca (2005: 19) tenta mostrar que “em primeiro lugar, devemos estabelecer antecipadamente o que buscamos atingir; depois, devemos examinar por onde podemos chegar lá mais rapidamente, e veremos, pelo caminho, desde que seja o certo, quanto avançamos cada dia e quanto nos aproximamos do objeto para o qual nos impele um desejo natural”.

É interessante observar que a prosa de Sêneca é vivaz, variada, alegre, própria para um pensamento moderno. As aventuras, pelas quais passam os bons, devem ser consideradas como provas, para melhor por em evidência suas virtudes. Segundo o autor é difícil para o homem manter sua serenidade perante o espetáculo da injustiça e da baixeza, do qual todos os dias é testemunha. O autor deixa alguns ensinamentos muito preciosos, como por exemplo, ao alertar para o fato de que o caminho mais conhecido é o que mais engana. Para Sêneca (2005: 21) “o mais importante é não seguirmos, como ovelhas, o rebanho daqueles que nos precedem, dirigindo-nos não aonde é preciso ir, mas aonde vamos”.

Sêneca conhece e sabe examinar como ninguém o coração humano. É importante ressaltar que o estoicismo nasceu das exigências éticas. Para o autor, o homem é o salvador de si mesmo. Por isso, mesmo apesar de suas obras terem sido escritas há dois mil anos atrás, ele continua moderno. Ele é um homem que vive a nossa vida e se agita em nossas lutas. Sobre quem é o homem feliz Sêneca (2005: 33) explica: “é feliz, portanto, quem tem um juízo reto; é feliz quem está contente com a sua sorte atual, seja ela qual for, e ama o que tem; é feliz aquele para quem a razão faz valer todas as coisas de sua vida”. Se faz necessário ressaltar que a fortuna, de acordo com o estoicismo, não macula a alma do sábio, desde que este não se deixe por ela escravizar.

A moral de Sêneca baseia-se no amor humano e em seus livros, vemos desfilar um grande sentimento de piedade. Assim, a doutrina moral de Sêneca nasce do amor e da dor. É uma contínua tentativa de fortalecer a alma contra as injúrias da sorte e da iniqüidade humana. É a preparação do homem para combates extremos: deve-se viver entre os próprios bens, entre as coisas mais queridas, como se a todo momento essas pudessem deixar-nos, como se a todo momento a vida mesma viesse a faltar-nos.

Ao ler sua obra, é possível perceber como ainda é atual. Mesmo não existindo uma comunicação de massa, o autor acaba fazendo uma crítica a forma como a massa é conduzida e argumenta que só nos salvaremos se nos afastarmos da massa. Segundo ele a prova do pior é a multidão. Com isso, devemos buscar o que é melhor e não o que está mais em voga. Essas lições simples, mas com profundidade e sabedoria, mostram a vivacidade do pensamento do autor.

Assim, é possível afirmar que em toda a vasta obra de Sêneca, o foco está na moral, visando a uma sabedoria, definida como arte de vida, sempre de acordo com uma filosofia estóica moderada toda sua. Sua originalidade repousa na argúcia com que analisou a sociedade romana do seu tempo e a ênfase que pôs no elogio do bem e da virtude.

O Autor

Lúcio Aneu Sêneca, o filósofo que iria ser um dos homens mais poderosos de Roma, nasceu em Córdoba, na Espanha, no ano I a.C. Seu pai, conhecido como Sêneca, foi um escritor de prestígio, e sua obra é admirada até hoje. Seus irmãos, Novato e Mela, também fizeram brilhante carreira política, tendo um deles entrado para o Senado. Isto mostra que Sêneca surge de uma família que tinha por tradição a atividade intelectual. Também é bom lembrar que graças aos seus talentos oratórios, obteve tão grande notoriedade que se tornou uma das personagens mais em moda e acumulando grande riqueza. Para o autor, é lícito ser rico, contudo é preciso viver de tal modo que se possa em cada contingência bastar a si próprio e renunciar a qualquer bem que a sorte pode dar, mas também tirar.

Os primeiros mestres de Sêneca na filosofia foram os estóicos ecléticos Sotion, Átalo e Papírio Fabiano. Sêneca iniciou-se na filosofia aos 14 anos, e foi Papírio quem mais o influenciou. Lembremos que o ensino de filosofia na época era sobretudo moral; as seitas místicas abundavam e competiam com as escolas filosóficas. Sêneca estudou, inicialmente, a retórica, ao tempo, saber indispensável para um bom advogado, vindo a tornar-se grande conhecedor da matéria.

Sêneca era ambicioso: no final da adolescência, já fazia seus primeiros discursos no fórum e assumiu as primeiras magistraturas. Mas, aos 25 anos sua saúde entra em colapso; retira-se da vida pública e vai tratar-se no Egito, onde o clima era saudável, e seu tio era o governador.

Em 31 d.C. Sêneca volta para Roma restabelecido, e logo trata de retomar a carreira política interrompida. Em 33 d.C. entra para o Senado, onde obtém rapidamente grande notoriedade, graças aos seus talentos em retórica e filosofia. Mais uma vez sua carreira foi bruscamente interrompida, por ter sido acusado de adultério com Júlia Livilla, uma princesa imperial. Provavelmente, Sêneca foi apenas vítima das intrigas da corte de Cláudio e da imperatriz Messalina, mas foi banido para a Córsega.

Em 48 d.C., com as reviravoltas políticas em Roma – morte de Messalina e ascensão da imperatriz Agripina, sua protetora – Sêneca retorna à vida política, e aí tem início a parte mais brilhante de sua carreira política e filosófica. Em 50 d.C. torna-se preceptor do jovem Domício, o futuro imperador Nero, filho de Agripina.

Sêneca é a voz de um período histórico tenso; ele é a voz que fala para e contra uma sociedade aristocrática, culta e em perpétuo sobressalto. É importante observar que na época de Sêneca, a filosofia buscava entender não só o mundo, mas também o homem, preocupando-se com os problemas morais. Observa-se que na filosofia da época, o enfoque era sobretudo na moral. Os romanos andavam, então, sequiosos de aconselhamentos ético-morais, regras de conduta e direção espiritual. As várias escolas filosóficas procuravam, pois, satisfazer todos esses anseios. Vive os últimos três anos da vida exilado, meditando e escrevendo.


*Jacir Alfonso Zanatta é jornalista e professor em Campo Grande e(MS) e colabora com o Tyrannus Melancholicus

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