ENTREVISTA

Entre uma noite e outra, esta entrevista



Lucinda Persona é uma das principais autoras que faz literatura brasileira, produzida em MT

Ameixas em compota

Existe
na vida completa
um amor que não aparece
e nem repousa tranquilo

ó eterna e doce supervisão
do muito que se tem a conservar

as formigas desfilam
num afrouxado cordão
diante dos meus olhos

(faço o que me agrada)

meus olhos nadam em lágrima
como ameixas em compota
em vidros envasadas.



Chegou da rua

Chegou da rua
Os ombros
            Ganharam a sua carga
Foi hoje
            (horas atrás)
E ainda não se sabe
Nem daqui a mil anos se saberá
Por onde andou.



Lucinda, por que e para que você escreve?
Escrevo (e descobri isso muito cedo) porque é um tipo de atividade que me faz um bem enorme. Escrever me encanta, me tranquiliza, me deixa em paz com o mundo e comigo mesma. E escrevo para me sentir feliz.

Você veio do Paraná para Mato Grosso com dezessete anos. E foi aqui que começou sua trajetória literária. Mas, eu acho que essa sina de escrever é algo que surgiu antes na sua vida. Poderia falar um pouquinho sobre os primórdios da sua relação com a literatura? Citar alguns fatos, obras, escritores etc; que te levaram para esse caminho?
Costumo dizer, em torno desta questão, que realmente a poesia nasceu comigo e, agora, olhando para trás, enxergo nítida a criança que eu fui: ansiosa por contemplar o mundo, deslumbrada com os pequenos paraísos ao redor da casa, ávida pelo universo das letras. Se for oportuno um episódio decisivo, evoco um conto infantil lido por minha professora do primário, um conto repleto de substâncias poéticas que me estimularam para aquele que chamo de caminho rutilante da escrita. Assim, a escola foi um elemento importante no sentido de me desvelar o universo dos livros, tanto na prosa quanto na poesia. Foram muitos os autores lidos. Machado de Assis, José de Alencar, Érico Veríssimo, Euclides da Cunha (fiquei impressionada com Os sertões, lido por volta dos 12 anos de idade). E também alguns poetas (românticos, parnasianos, simbolistas e tantos outros do modernismo).

Seu verso, segundo o meu entender, é uma combinação equilibrada entre o racional e os acidentes de percurso que acometem os poetas – esses manobristas da palavra (obrigado Manoel de Barros) – quando optam por uma ou outra palavra (ou combinação delas), ao escrever um poema. Será que eu errei feio, ou passei perto nesta audaciosa suposição?
Acho que você acertou bonito.

Você é mais conhecida como poeta, mas também se mostra muito desenvolta na prosa. Pra você é mais fácil versejar do que prosear? O prazer de escrever de uma ou outra forma é diferente? Desconfio que você vá responder que depende...
O prazer da escrita, para mim, é o mesmo em qualquer gênero, mas, não posso negar que no campo da poesia eu me sinto mais desembaraçada, desenvolta e com vislumbres mais fáceis e constantes. Já na seara da prosa, atravesso um clima um tanto quanto turvo, nebuloso, coração e razão ficam em alerta máximo.

Acho que conheço a maior parte da sua obra e nela reparo o conteúdo regional. Mais metafórico, do que escancaradamente. Acho que ninguém, ainda mais quem lida com as artes, vive impune ou imune às coisas desta terra. Mas, como você optou por editar (um livro solo) com uma editora local, e a obra traz uma ilustração de Regina Pena na capa, deduzo que este será o mais cuiabano de todos os seus livros...
Muito certa esta proposição de que “ninguém vive imune às coisas da terra”. Cultivei, de antiga data, a ideia de editar pela Entrelinhas e a oportunidade se apresentou, com um resultado bonito de se ver na produção gráfica e capa a partir do emocionante “Noturno na Vereda” de Regina Pena. Sempre fiz diálogo com as artes plásticas e todos os meus livros trazem capas com obras de artistas mato-grossenses ou que por aqui já passaram, exceto Tempo comum (2009), cuja imagem “Mulher azul” é de autoria do curitibano Emerson Persona. Neste novo livro, embora existam muitos poemas estrangeiros, gerados em outros recantos, a maior parte foi concebida aqui, na atmosfera candente do nosso Cerrado, berço também do livro-objeto, o que lhe confere o título do mais cuiabano. Com muito gosto.

Os poemas de “Entre uma noite e outra” são muito diferentes daqueles dos seus livros anteriores? Você e a sua poesia estão mudadas e/ou influenciadas por estes novos tempos de altas tecnologias?
Há uma bela afirmação de José Saramago que diz: “Todos os dias são iguais, e nenhum se parece”. Assim, com a devida licença poética, imagine a frase aplicada a todos os poemas.

Depois que o Ricardo Dicke partiu, tomei a liberdade de classificá-la como o principal nome (vivo) das letras mato-grossenses e tenho dito isso a algumas pessoas. Até agora, ninguém discordou. Se você puder falar algo sobre isso, penso que seria uma boa forma pra fecharmos esta entrevista, apesar de não ser uma colocação confortável para a escritora tão discreta que você é...
Se até agora ninguém discordou, eu discordo, meu generoso amigo-poeta-jornalista. Há grandes e luminosos “nomes vivos” nas letras mato-grossenses. Vejo-me apenas como aprendiz nessa escola colossal da vida, alguém que se interessa por tudo no mundo, que sonha bastante, que enfrenta dificuldades, que se sente melhor e vive espiritualmente melhor realizando a escrita, esta difícil e complexa tarefa. Para fechar a questão, retiro do “Caderno de Aprendiz” de Manoel de Barros os oportunos versos: “Tenho o privilégio de não saber quase tudo. E isso explica o resto”.



ABAIXO, chamada e imagem publicadas na capa na edição original desta entrevista

A terça-feira (10/03) chegou e na sua primeira hora o esperado e-mail. As respostas de Lucinda Persona às sete perguntas que havia lhe encaminhado na noite de domingo – o Dia da Mulher, por conta do seu novo livro de poesias. “Entre uma noite e outra” (Entrelinhas Editora) será lançado nesta quarta, no Arsenal. Não costumo açodar minhas amizades artísticas com entrevistas céleres, mas como fiquei sabendo muito em cima da hora da chegada do novo rebento literário, pedi as respostas, e Lucinda consentiu. Bom, o lançamento acontece a partir das 19 horas e é aberto ao público em geral. São sessenta poemas, o prefácio é do José Castello e na capa reproduz um lindo trabalho da artista plástica Regina Pena. Tudo bem, eu perdôo se você não quiser ler a entrevista. Se assim for, leia pelo menos os dois poemas que estão no livro, uma espécie de “preâmbulo” que abre nossa conversação...

Voltar  

Agenda Cultural

Veja Mais

Últimas Notícias

Mais Notícias

Newsletter

Preencha o formulário abaixo para receber nossa newsletter:

  • Nome:

  • Email:

  • assinar

  • cancelar


Copyright © 2012 Tyrannus Melancholicus - Todos os direitos reservadosTrinix Internet