EXPEDIÇÃO

Sagihengu, patrimônio nacional



gabriele garcia

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Para povos indígenas do Alto Xingu, o Sagihengu é o mesmo que a Meca, Jerusalém e o Cristo Redentor para sociedades não índias

Durante expedição pelo rio Kuluene, um dos que compõem a Bacia do Xingu, um grupo composto por 15 indígenas, uma antropóloga, uma bióloga e uma promotora pública constatou alto nível de degradação arqueológico/cultural e ambiental em um dos lugares sagrados para as nove etnias do Alto Xingu. Devido à redução dos limites originais de ocupação do território, o ponto visitado, chamado de Sagihengu, está localizado fora da área indígena, mesmo assim é considerado, desde 2010, Patrimônio Cultural do Brasil devido à sua simbologia espiritual e religiosa.

A viagem pelo rio durou seis dias e foi encerrada nesta terça-feira (13/06). O propósito da Expedição Sagihengu, idealizada pelos Kalapalo, era registrar, em vídeo, a narrativa dos anciões sobre as histórias místicas do local. Agora, com este material em mãos, será produzido um documentário destinado às escolas da etnia. O objetivo é que o produto audiovisual seja utilizado como um dos instrumentos para preservar e transmitir o conhecimento tradicional às atuais e futuras gerações. Com este intuito, estiveram presentes representantes de cinco aldeias Kalapalo (Kuluene, Aiha, Lagoa Azul, Tanguro e Tangurinho), dentre eles, quatro caciques.

O cronograma foi cumprido. Entretanto, como o Sagihengu está localizado fora dos limites do Território Indígena do Xingu (TIX), os indígenas não têm conseguido visitar o local com a frequência que gostariam e acabaram se surpreendendo negativamente. “Quando fui lá, em 2004, o lugar estava bem mais limpo. Depois que foi tombado, voltei lá em 2011, vi que ainda tinha bastante verde. E agora tem uma estrada aberta lá, um barracão construído, pesqueiros, latas, plástico...”, lamenta Tahugaki Kalapalo, 38, um dos representantes da aldeia Kuluene.

Degradação cultural

De acordo com a arqueóloga Gabriele Garcia, a situação é preocupante, pois existem vários sítios arqueológicos na região, tanto no interior da área tombada quanto no seu entorno. Portanto, certas atividades, como pesca, abertura de estradas e delimitação de áreas de fazenda tem causado impactos irreversíveis. “Passaram com trator dentro da área tombada para fazer cerca e, nestes lugares, havia muito material arqueológico, tanto cerâmico quanto lítico”, relata.

“Achamos pedaços de cerâmica quebradas. São panelinhas que os antigos indígenas faziam e o trator passou e quebrou várias”, complementa Tahugaki. Gabriele explica que, quando sítios são revolvidos (inversão de camadas arqueológicas e dispersão de material), é difícil precisar algumas informações sobre os antigos grupos indígenas que habitavam o local, principalmente no que diz respeito à organização/estrutura destas sociedades.

“Num contexto preservado, podemos entender onde era o local de roça, de oficina cerâmica, moradia, sepultamento, que é importante para compreender o modo de vida daquelas pessoas”, ressalta.

Degradação ambiental

Concomitantemente, o contexto ambiental do Sagihengu também se destaca negativamente. É possível notar grande quantidade de lixo, como garrafas e latas de bebidas alcoólicas, abandonadas em pesqueiros ilegais às margens do rio Kuluene.

A bióloga Cássia Rosin comenta que, dentro da Área de Preservação Permanente (APP), é comum avistar ranchos e barracões onde as pessoas se hospedem durante a pescaria, bem como algumas erosões. “Além da pesca, que pode ser predatória, ainda têm os resíduos mal geridos. O espaço está sendo utilizado de maneira totalmente inadequada”, pontua.

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Sagihengu está localizado fora dos limites do Território Indígena do Xingu (TIX), os indígenas não têm conseguido visitar o local com a frequência


A promotora Solange Linhares (Promotoria de Justiça Especializada da Bacia Hidrográfica do Xingu Sul) está entrando em contato com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (SEMA) e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) para que façam as devidas fiscalizações na área tombada e no seu entorno.

“Após a comprovação dos danos ambientais e culturais, vamos fazer o que for cabível dentro da legislação. Normalmente, por se tratar de APP, são aplicadas multas ou embargo da propriedade”, destaca a represente do Ministério Público Estadual (MPE).

Além disso, próximo ao local há um ponto de extração de cascalho. A bióloga Cássia alerta que a prática pode ser danosa ao ambiente. Por isso, vão analisar se está dentro do sítio arqueológico e se os responsáveis possuem autorização dos órgãos competentes.

Independente das possíveis punições pela degradação cultural e ambiental, Tahugaki já tem a solução para que o lugar sagrado seja recuperado e se mantenha, novamente, preservado. “Foi tombado. É da União. Quem pode cuidar, ficar vistoriando, são os indígenas, que são os cuidadores do sítio arqueológico”.

Sagihengu

Tombado como Patrimônio Cultural do Brasil há sete anos pelo IPHAN, o Sagihengu integra o Kwarup, a maior festa ritualística entre os povos do Alto Xingu. Portanto, o tombamento teve como objetivo preservar a cultura nos aspectos espirituais e religiosos das comunidades que participam do rito, além, é claro, de conservar o espaço físico, dada sua relevância arqueológico e ambiental.

O Kwarup é uma cerimônia anual, realizado no final da estação seca, entre agosto e setembro, com duração de alguns dias. O ritual presta homenagem póstuma a chefes e lideranças indígenas. A cerimônia estabelece o fim do luto e da tristeza, ao mesmo tempo em que restaura a alegria, a vida e o início de um novo ciclo.

Na época do tombamento, um dos representantes dos povos do alto-Xingu, Ianacolá Rodarte, índio Kamayurá, explicou que rito do Kwarup é vital para a existência das comunidades e comparou a importância do lugar sagrado com símbolos não indígenas. “Tem a mesma relevância para nós, quanto os lugares sagrados de outros povos, como Meca, Jerusalém, Cristo Redentor...”. (*da assessoria)

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Um grupo composto por 15 indígenas, uma antropóloga, uma bióloga e uma promotora pública estava presente na expedição


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