ENTREVISTA

Um autor que merece visibilidade



odair

 

Odair de Morais é um autor cuiabano, no qual, muita gente boa que faz parte do "povo do livro de Mato Grosso" (rótulo criado pelo editor Ramon Carlini) já vem apostando há bom tempo. Pois bem, esse cara de Cuiabá, migrado pra Várzea Grande, que lançou seu primeiro livro somente no ano passado (Contos Comprimidos), vai lançar novo livro daqui a pouquinho. Na LiteraMato.

"Instanta Pictórico" (Carlini&Caniato Editorial) traz cem poemas, ao estilo haicai. O livro só chega agora, mas trata-se de versos que habitam há anos a cabeça de Odair. E o autor, que também é professor do ensino público, não estará na LiteraMato apenas para lançar o novo livro.

Está entre os autores que vão participar da prosa literária "Literatura nas Escolas", dia 22, ao lado de escritores do nosso pedaço como Luiz Renato e Aclyse de Mattos. 

Odair é tímido. Timidez é esse jeito de ser que acomete alguns artistas que acabam se prejudicando por conta disso. Por conta disso e do despreparo de profissionais de comunicação que jamais deveriam trilhar pelo jornalismo cultural. Segue abaixo uma entrevista via email com Odair...

Fale um tiquinho de como você veio ao mundo. No linguajar cuiabano, "gente de quem você é"?

Meus pais nasceram no município de Nossa Senhora do Livramento e vieram para Várzea Grande na década de 60: um casal de trabalhadores que investia o que tinha para ver os filhos estudando no colégio dos padres e das freiras. Sou o caçula de quatro irmãos professores. Funcionário público. Casado. Cuiabano, mas sempre vivi na Cidade Industrial. Na infância, morei numa casa a uns cem metros do rio Cuiabá, quase de frente para o bairro do Porto, cujo cenário em perspectiva aparece em aquarela na capa de meu mais recente livro.

Odair, estou entre os ativistas da cultura regional que defendem a tese de que a qualidade da sua literatura merece bastante visibilidade. Assim sendo, sem mais delongas, como foi que a literatura entrou na sua vida?

Aos 15 anos. Em 1997, no ensino médio, eu era aluno de Desenho Industrial na Escola Técnica Federal de MT. O curso obviamente não tinha nada a ver comigo, tanto que o abandonei logo em seguida. Isolado e quase sem amigos, eu sofria bullying e por isso vivia matando aulas. Um dia, por acaso, encontro na biblioteca uma antologia do conto brasileiro “contemporâneo”. Era uma publicação dos anos 70 com textos de Dalton Trevisan, Luiz Vilela, Clarice Lispector, Samuel Rawet e outros. Foi o que me salvou! Uma edição primorosa, que, além dos contos, trazia a biografia e a indicação das obras dos respectivos autores. Devo ter o livro até hoje! Claro que eu tinha lido outras obras antes, mas nada que se comparasse com a publicação citada. Nenhum livro até ali tinha dialogado tão diretamente comigo. A partir de então, passei a colecionar tudo o que os meus autores prediletos tivessem publicado. Foi assim com Fernando Sabino, por exemplo. Até as cartas enviadas por ele ao escritor Mário de Andrade eu li. José Mauro de Vasconcelos foi outro mago que soprou em mim o desejo de me tornar escritor.

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Entre os escritos e as aulas, brincar com a filha faz parte do cotidiano do autor

Sei que neste mês você vai lançar livro novo, mas deixemos pra falar disso daqui a pouquinho. Diga lá sobre coisas já publicadas... Onde, quando, como etc. Claro que não precisa se estender muito. Quero resposta enxuta, racional e inspirada. Pois é essa postura verbal que combina com sua produção literária.

Serei breve. Tudo começou com o concurso Palavra Aberta, em 2002, na época organizado pelo poeta e escritor Juliano Moreno. Tive um poema selecionado entre os melhores e levei pra casa um montão de livros como prêmio. Acreditei. Quis produzir mais. Trabalhava num sebo, quando conheci o Marinaldo Custódio que levou meus textos pra RDM. Cursei Letras na UFMT e vi meus contos, crônicas e poemas saírem nos anos seguintes na Estação Leitura, na Fagulha, no jornal Folha do Estado e no Diário de Cuiabá. Fiz parte da antologia “Beatniks, malditos e marginais”, idealizada pelo escritor Wuldson Marcelo, em 2013. “Contos comprimidos”, meu livro de estreia, foi publicado no ano passado pela editora Multifoco, do Rio de Janeiro. 

Fale um pouquinho do seu cotidiano, em níveis doméstico e profissional...

Meu cotidiano é trivial. Cuido de plantas. Dou atenção aos cachorros. Brinco com minha filha. Gosto de dirigir mais do que um motorista de Uber: atrás do volante do meu velho carro ainda sou o menino que se enfiava entre os móveis da casa e punha nervosismo na mãe por causa do sumiço das tampas de suas panelas de alumínio inoxidável. O restante do dia, alterno as atividades entre leitura e trabalho. Sou professor da rede pública de ensino. Mas, atualmente, estou em desvio de função devido a um problema na coluna. Cuido da biblioteca. As bibliotecas deviam ser consideradas o coração das escolas, mas há ainda muito descaso por parte dos governantes. Algumas escolas nem biblioteca possuem! Apesar disso, os livros continuam servindo como antídoto contra a politicagem e o funk ostentação.

E como é que surge a sua literatura neste dia a dia suado e lascado em Cuiabá?

Minha poesia é porosa. Prosa porosa feita de fragmentos, recortes, entulhos e restos de uma infância demolida. Observo a vida na rua, leio, faço anotações. Meu escritório é minha carpintaria. Suo o dia inteiro no esmeril até que uma frase me satisfaça. Escrevo de madrugada: talvez por isso meus poemas tragam tantos elementos noturnos. “Instante Pictórico” na verdade era pra ser intitulado “Lua no varal”, mas pouco tempo atrás descobri numa livraria online a existência de um livro infantil homônimo publicado em 1983. A influência, neste caso, foi exclusivamente do calor cuiabano.

A atividade literária – gosto de dizer isso, implica principalmente em muita leitura. Diga-nos o que você lê e de quem e do que você gosta?

Nos últimos tempos pesquisei a obra de inúmeros haicaístas. Clássicos e contemporâneos. Nacionais e estrangeiros. Bashô, Issa, Jack Kerouac. Alice Ruiz, Paulo Franchetti, Teruko Oda. Para ter uma ideia, este ano me dispus a anotar o nome dos livros cuja leitura eu conseguisse levar até a última página e me surpreendi ao perceber que a maioria das obras lidas pertence ao gênero “poema”. Leio muitos poetas, sobretudo os consagrados no século XX. Acredito que isto tenha influenciado diretamente a minha escrita. Hoje, com a intenção de mudar um pouco o foco e até para não ficar rotulado como o cara que escreve tudo em três linhas, adquiri uma coleção de livros teóricos e voltei a estudar os autores com os quais tive contato inicialmente na faculdade: Antonio Candido, Ricardo Piglia, Raimundo Carreiro... São livros sobre a arte da prosa e técnicas do conto e do romance. A lista vai de Joseph Campbell a Stephen King.

Última pergunta: o que significa "Instante Pictórico"?

Em 2003, quando publiquei uma crônica na RDM, coloquei no rodapé a informação de que eu possuía um livro inédito engavetado, cujo título era, sem tirar nem pôr, “Instante Pictórico”, uma ideia antiga bolada na época em que lia muita coisa do Oswald de Andrade. Como se pode ver, eu era desde então um entusiasta do chamado “poema pílula”. Veja: não é por acaso que o meu livro anterior se chama “Contos Comprimidos”. “Instante Pictórico”, assim, tem a ver com a rapidez dos nossos dias. Com câmeras de celulares. Pessoas em trânsito. Paisagens fugidias como recordações. Neste contexto, o poema é capturado e pictografado pelos smartphones e o que estava acontecendo neste instante se torna perene. Por outro lado, procurando ir além de definições e conceituações, posso afirmar que “Instante Pictórico” significa o que de melhor até hoje escrevi na modalidade haicai, pois no livro estão reunidos cem poemas selecionados entre algumas centenas que venho escrevendo desde 2005. E, além disso, representa o apoio de muita gente bacana. Ricardo Silvestrin, poeta gaúcho autor do livro “Bashô um santo em mim”, contribuiu com a apresentação. O poeta pernambucano Múcio Góes topou ler os haicais e escrever o texto de orelha quando o livro nem apresentava a configuração que tem hoje. O desenhista e ilustrador Alexandre Santana, que é meu primo, fez em aquarela o desenho da capa e finalizou a embalagem do produto que agora coloco à venda por vinte mangos nas livrarias. E os editores Ramon Carlini e Elaine Caniato que trabalharam com afinco para que o esforço coletivo resultasse numa edição perfeita.

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Ele vai lançar livro e participar de mesa na LiteraMato


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