TEORIA VERDE

Cerca de 60 pessoas participaram



raimundo reis

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O projeto Teoria Verde foi criado em 2016 e tem apoio de voluntários, entidades, associações e instituições públicas

Cerca de 60 pessoas, entre pescadores, ribeirinhos e voluntários do Projeto Teoria Verde recolheram cerca de 7 toneladas de lixo acumulados nas margens do rio Cuiabá, corixos do Pantanal de Barão de Melgaço e nas baías Sia Mariana e Chacororé. É um cenário  que choca quem desce o rio de barco até as baías. A todo instante se pode ver  lixo boiando na água. 

Jogado de forma aleatória nas ruas de Cuiabá e Várzea Grande, é levado pelas chuvas para a calha do rio Cuiabá e acaba se acumulando no Pantanal, a maior planície inundável do mundo. E a imundície urbana não para por aí. Vai escorrendo pelo rio Paraguai e ganha o mundo pelo oceano Atlântico.

Foram 24 horas coletando todo tipo de lixo: capacetes, geladeiras, fogões, plástico, latas, garrafas PET, caixas de suco, leite, embalagens de óleo, tampinhas, roupas, chinelos e todo tipo de objeto consumido pelos habitantes da Baixada Cuiabana. Em mais de 20 barcos, estavam os 40 pescadores profissionais da Colônia Z5, gente ribeirinha que vive até hoje do peixe, que come seu melhor alimento contaminado pela irresponsabilidade cuiabana.

Nascido na comunidade de Canga, em Barão de Melgaço, João Batista da Cruz é pescador desde que era bem garoto  e não deixa esconder sua tristeza ao ver a quantidade de porcaria que ele encontrava ao abrir com as mãos a vegetação das margens do Pantanal. Com os olhos marejados, ele clamava respeito pelo Pantanal e sua gente. "Parem de jogar lixo na rua, pensem em nós que vivemos aqui nesse Pantanal que faz bonito pro mundo e nos sustenta. Cada um tem que fazer a sua parte", desabafou.

O que não é encontrado no meio dos aguapés do Pantanal, está literalmente escondido nas baías de Chacororé e Sia Mariana. Em mais de 17 Km de extensão de lâmina de água, o lixo está sedimentado em camadas depositadas há quase oito metros de profundidade. "É como se jogássemos a sujeira para debaixo do tapete. A gente não vê, mas tá tudo aí", mostrava o presidente da Colônia Z5, Domingos Antônio de Oliveira.

Hugo Miele, gerente de uma das pousadas de Barão de Melgaço foi um dos participantes da Ação Voluntária de Limpeza do Pantanal."É uma imagem ruim que o turista acaba vendo no Pantanal. É difícil acreditar que alguém aqui jogue lixo no rio mas a falta de locais adequados para o armazenamento dos resíduos sólidos na Baixada Cuiabana provoca essa situação lamentável de ver o lixo escorrendo pelo rio Cuiabá e sendo depositado nos corixos, canais e nas baías do Pantanal. Hoje a gente que trabalha com o turismo pantaneiro é obrigado a vê um turista fazendo foto de um ave em cima de uma garrafa de refrigerante", conta.

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Ribeirinhos que vivem da pesca se emocionam diante da situação e clamam pelo respeito ao Pantanal e sua gente

Antes de navegarem pelo rio Cuiabá, voluntários do projeto Teoria Verde, educadores ambientais da Secretaria Estadual de Meio Ambiente - Sema, e catadores, foram às escolas de Barão de Melgaço conversar com os estudantes. Almerindo Sebastião Filho, diretor da Escola Estadual Coronel Paes de Barros relata o trabalho educativo feito na escola: "Procuramos mostrar as crianças que o lixo tem que estar no lugar certo. As crianças absorvem mais o comportamento correto que devemos ter com relação a esse problema. É muito preocupante ver tanto lixo sendo depositado no Pantanal". Ao seu lado, o garoto Isaías Emanuel da Silva, de 11 anos, contava quantas vezes seu pai precisou afastar garrafas pet, embalagens de óleo e capacete velho para conseguir pescar. "Tem dia que tem mais lixo que peixe", lembrou.

O agricultor Pedro Rodrigues que tem uma propriedade rural na cabeceira do rio da Prata com o rio Mutum acha que "não adianta esperar nada de político, temos que nos unir para acabar com o lixo, com o assoreamento. Cada um tem que manter sua casa, sua calçada limpa. O Pantanal é o coração de Mato Grosso e temos que lutar para que ele seja preservado. O rio Cuiabá é a vida da Baixada Cuiabana", disse.

O secretário adjunto de Turismo de Mato Grosso, Luis Carlos Nigro, foi ver de perto a situação preocupante para o turismo do Estado."É impressionante a quantidade de lixo que desce pelo rio Cuiabá jogado pelas cidades que ficam nas margens do rio, principalmente Cuiabá e Várzea Grande. Gera um impacto muito negativo para o turismo. Você imagina o que é levar um turista para ver uma natureza exuberante como a do Pantanal e, ao mesmo tempo, fazê-lo ver lixo boiando nas margens, nos galhos. Tem de tudo, é muito ruim. Estas ações têm o objetivo de mostrar essa realidade e mudar a cultura da população de jogar lixo nas ruas", disse Nigro. 

O projeto Teoria Verde foi criado em 2016 e tem apoio de voluntários, entidades, associações e instituições públicas. Já foram 52 ações de limpeza realizadas e 180 toneladas de lixo retirados do Pantanal, Chapada dos Guimarães, parques e rodovias. Cerca de três mil voluntários já participaram das ações. 

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Barão de Melgaço, cidade ribeirinha, local estratégico para o desenvolvimento e o sucesso da iniciativa

O coordenador do proejto, Jean Peliciari, conta que há alguns anos visitou Moçambique e ficou incomodado com o lixo nas ruas. "De lá pra cá eu comecei a motivar ações de limpeza em Moçambique. Começou com 20 pessoas e já foram mais de 70 ações realizadas naquele país. Eu não percebia o lixo na minha própria cidade", disse. E ele lembra que vivemos o mesmo problema aqui. 

"Lancei o Teoria Verde e começamos a pegar lixo que outras pessoas jogam. A mensagem que queremos passar é que não adiante culpar o Governo, a prefeitura, dizer que paga imposto para limpar a cidade", ressalta Jean. Seu raciocínio aponta que o cidadão tem que entender que ele é o único responsável pelo lixo que está jogado nas ruas. A ação de limpeza do Pantanal teve a apoio de voluntários,  da Associação Casa de Guimarães, Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Secretaria Adjunta de Turismo, Sema, Assembléia Legislativa e mais 16 entidades.

Armazenamento correto

A gestão dos resíduos sólidos e a lentidão dos municípios da Baixada Cuiabana para cumprirem a Lei nº 12.305 contribui muito para a contaminação de áreas de conservação como o Pantanal. A lei de Resíduos Sólidos é de 2010 e até hoje nem mesmo Cuiabá tem um aterro sanitário regulamentado e em condições ideais. A Prefeitura de Cuiabá tem tido iniciativas pontuais de coleta seletiva, mas até então insignificantes. 

A presidente da Associação dos Catadores de Material Reciclável e Reutilizável de Mato Grosso, Cidinha Nascimento, e seus companheiros, já participaram de três ações de limpeza do Pantanal, separando tudo aquilo que pode ser vendido e reutilizado.

"Quando a gente abre os sacos de lixo recolhido no Pantanal, dá para perceber que 85% dos resíduos vêm da Baixada Cuiabana. A gente vê material com alto risco de contaminação e que pode matar o Pantanal. Quando fazemos a triagem, apenas cinco a dez por cento é rejeito, o restante é tudo aproveitável", salienta Cidinha. 

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Navegar pelas águas pantaneiras, na região da Baixada Cuiabana, é como marcar encontro com o lixo urbano

Ela frisa que os catadores vivem disso e seria muito melhor se as pessoas separassem o lixo seco do úmido e não jogassem em qualquer lugar. "Hoje tem gente já separando tudo no lixo de casa, mas aí não tem coleta seletiva na Baixada Cuiabana. As prefeituras precisam investir mais, tratar a questão com seriedade e conscientizar a população", diz.

O secretário Estadual de Meio Ambiente, André Baby disse que a Sema apontou pendências no Estudo de Impacto Ambiental apresentado pela Prefeitura de Cuiabá para o processo de licenciamento do aterro sanitário da capital. "A prefeitura protocolou as pendências na semana passada e a Sema dará a celeridade na análise do processo, uma vez que o projeto é essencial para a preservação do Pantanal e para a qualidade de vida da população", disse. 

O secretário também ressaltou que mês passado a Sema emitiu a licença de operação para o Consórcio Nascentes do Pantanal que irá operar um aterro sanitário em Mirassol do Oeste, atendendo cinco municípios situados nas cabeceiras do Pantanal. O aterro tem capacidade para receber 20 toneladas de lixo/dia.

Protesto com arte

A Casa de Guimarães produziu com o artista plástico Luis Segadas uma instalação feita com material reciclável em forma de peixe exposto nas margens do rio Cuiabá em Barão de Melgaço, onde foram coletadas 7 toneladas de lixo por voluntários do Teoria Verde, pescadores e instituições neste final de semana. O artista diz que a instalação é além do que ela quer refletir com seu conteúdo, refletir a cultura do descarte com uma experiência poética e que pode ser utilizada em novas práticas.

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As sete toneladas de lixo coletado são compostas por capacetes, geladeiras, fogões, plástico, latas, garrafas pet, caixas de suco, leite, embalagens de óleo, tampinhas, roupas, chinelos

 


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