A VERDADE

E a longa história das notícias falsas



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"Os homens não encontram a verdade, a constroem, como constroem sua história" (Paul Veyne)

A primeira vítima da guerra é a verdade, afirma um velho ditado jornalístico. Embora o mais correto fosse dizer que a verdade é vítima recorrente em qualquer sociedade organizada, porque a mentira política é uma arte tão velha quanto a civilização. A verdade é um conceito fugidio na metafísica e mutante nas ciências – uma nova descoberta pode anular o que se dava como certo –, mas no dia-a-dia o assunto é bem diferente: há coisas que aconteceram, e outras que não; mas os fatos, reais ou inventados, influenciam a nossa percepção e opinião.

Desde a Antiguidade, verdade e mentira se misturaram muitíssimas vezes, e essas realidades falsas influenciaram nosso presente. Assim já escreveu o grande historiador francês Paul Veyne em seu ensaio Os Gregos Acreditavam em Seus Mitos? (Unesp): “Os homens não encontram a verdade, a constroem, como constroem sua história”.

Chegados a este ponto, convém fazer uma distinção entre notícias falsas e propaganda: ambas crescem e se multiplicam no mesmo ecossistema, mas não são exatamente iguais. A propaganda procura convencer, ser eficaz, e para isso pode recorrer a todo tipo de instrumento, da arte e do cinema aos pasquins e redes sociais. As notícias falsas, um dos ramos da propaganda, são diferentes: procuram enganar, criar outra realidade. A preocupação com a perpetuação desses equívocos e com os mecanismos que os criam e multiplicam não é nova: Réflexions d’Un Historien Sur les Fausses Nouvelles de la Guerre, (“reflexões de um historiador sobre a notícias falsas das guerra”, Allia, 2012) é o título de um pequeno e influente ensaio que Marc Bloch publicou originalmente... em 1921.

Esse historiador, assassinado pelos nazistas em 1944, foi um dos mais influentes do século XX. Impulsionou a Escola dos Anais, que mudou o foco da pesquisa do passado para a vida cotidiana, e retornou das trincheiras da Primeira Guerra Mundial alucinado com a importância que as notícias falsas haviam tido. Isso o levou a refletir sobre sua origem e difusão, num texto que poderia ter sido escrito na era do Brexit, de Vladimir Putin e de Donald Trump, nestes tempos das redes sociais e de mensagens virais. “As notícias falsas mobilizaram as massas. As notícias falsas, em todas as suas formas, encheram a vida da humanidade. Como nascem? De que elementos extraem sua substância? Como se propagam e crescem?”, escreve, para afirmar um pouco mais adiante: “Um erro só se propaga e se amplifica, só ganha vida com uma condição: encontrar um caldo de cultivo favorável na sociedade onde se expande. Nele, de forma inconsciente, os homens expressam seus preconceitos, seus ódios, seus temores, todas as suas emoções”. Em outras palavras, as notícias falsas necessitam de gente que queira acreditar nelas.

Mudar a história

O século XX e o que já vivemos do XXI são a era das mentiras em massa. Três dos grandes conflitos em que os Estados Unidos se meteram neste período começaram com invenções: a guerra de Cuba (1898), com a manipulação dos jornais; a guerra do Vietnã (1955-1975), com o incidente do golfo de Tonkin, e a invasão do Iraque de 2003, com as inexistentes armas de destruição em massa de Saddam Hussein. “A guerra contra a Espanha [em 1898] foi obra de Hearst e de Pulitzer”, escreveu o repórter Manuel Leguineche em seu ensaio sobre o nascimento do jornalismo sensacionalista, Yo Pondré la Guerra (“eu porei a guerra”, El País Aguilar). “Foi sua grande oportunidade de mudar a história, de criar uma psicose de guerra, de fabricá-la, por meio de sensacionalismo, tiragem, circulação milionária, venda maciça, chute no estômago do leitor”.

Ao mesmo tempo em que surgiam os jornais de circulação maciça, nascia também um certo ceticismo em relação a eles. Era como se alguns se empenhassem em demonstrar que a verdade estava em outro lugar. Essa desconfiança se prolonga até nossos dias, com aqueles que acreditam erroneamente que a imprensa conta mentiras, e que as redes sociais oferecem verdades. Com o telégrafo, chegou a possibilidade de enviar rapidamente histórias através de longas distâncias; com o linotipo foi possível imprimir maciçamente; e com os novos meios de transporte essas publicações puderam ser distribuídas em numerosos lugares. Mas nesse mesmo momento, no final do século XIX, surgiu a desconfiança quanto àquilo que contavam, a mesma que nutre agora os que procuram essa outra verdade no Facebook, que para alguns é a única janela para o mundo. É muito significativa, nesse sentido, uma cena de Um Estudo em Vermelho, o primeiro romance de Sherlock Holmes, publicado em 1887, em que o detetive e Watson repassam os diferentes jornais – The Daily Telegraph, Daily News, Standard – e todos contam uma versão falsa do crime que estão investigando, impulsionada por motivos políticos: uns culpam os europeus, outros os estrangeiros, ou os liberais. Nenhum cita uma pista confiável.

Uma das grandes tragédias do século XX, as matanças maciças promovidas pelos grandes totalitarismos, conseguiu se esconder detrás de notícias falsas. As ditaduras nazista e soviética não só fabricaram falsidades tremendas como também foram capazes de construir outra realidade, em que o verdadeiro e o falso eram elementos acessórios. Como apontou o escritor francês Emmanuel Carrère, “na URSS não se aboliu a propriedade privada, aboliu-se a realidade”. Agora pode parecer quase incrível que enquanto Stálin assassinava e deportava milhões de pessoas a bondade do socialismo se mantinha como um dogma em grandes setores do Ocidente. Muita gente achou, de boa ou má fé, que a realidade era, nesse caso, uma notícia falseada. Assim explicava o historiador Tony Judt em Pensando o Século XX (Objetiva): “Os que entenderam corretamente o século tiveram que imaginar um mundo para o qual não existiam precedentes. Tiveram que supor que essa situação insólita e claramente absurda estava acontecendo na realidade, em vez de dar como certo, como todos os demais, que era grotescamente inimaginável”.

Mensageiros do desastre

A historiadora francesa Annette Becker estudou a influência que a propaganda da Primeira Guerra Mundial teve sobre a Segunda. As notícias falsas difundidas contra os alemães entre 1914 e 1918, quando eram acusados de todo tipo de brutalidades com fins propagandísticos, tiveram um efeito negativo na percepção das atrocidades que foram efetivamente cometidas entre 1939 e 1945, sobretudo em relação ao Holocausto. Um exemplo disso foi a descrença que recaiu sobre os primeiros agentes poloneses que trouxeram a notícia do extermínio de judeus por parte dos nazistas. Em seu livro Messagers du Désastre (“mensageiros do desastre”, Fayard), que acaba de sair na França, Becker relata a história do Jan Karski, um herói polonês que arriscou a vida para levar a notícia do Holocausto a Londres. Não acreditaram nele quando informou aos aliados sobre o que ocorria. Um alto oficial britânico lhe explicou: “Senhor, durante a Primeira Guerra Mundial difundimos a propaganda de que soldados alemães esmagavam crianças belgas contra os muros. Acredito que fizemos bem. Isso nos ajudou a debilitar o moral do inimigo, a aumentar o ódio contra os alemães. Precisamos de relatos como o seu”. Karski acrescentou: “Notava-se claramente que ele não acreditava em mim”. De novo, uma notícia verdadeira era percebida como falsa.

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"Um erro só se propaga e se amplifica, só ganha vida com uma condição: encontrar um caldo de cultivo favorável na sociedade onde se expande. Nele, de forma inconsciente, os homens expressam seus preconceitos, seus ódios, seus temores, todas as suas emoções" (Marc Bloch)

Mas as regras que Marc Bloch intuiu há um século – que as notícias falsas precisam de uma sociedade disposta a acreditar nelas – começaram a ser aplicadas muito antes da era da comunicação de massas, já desde os criadores do pensamento histórico, primeiro Heródoto e depois Tucídides. “A democracia ateniense tem uma espécie de momento institucional, de marco crucial, que na verdade foi uma genial construção narrativa”, afirma o helenista Óscar Martínez, professor de grego, presidente da delegação de Madri da Sociedade Espanhola de Estudos Clássicos e autor de Héroes que Miran a los Ojos de los Dioses (“heróis que olham nos olhos dos deuses”, Edaf).

“Trata-se do elogio dos tiranicidas Harmódio e Aristógito, que são mostrados como os fundadores heroicos da democracia, já que assassinaram o tirano de Atenas. Mas quando Heródoto e Tucídides narram este episódio, se vê claramente que há coisas que não batem: não mataram o tirano, e sim o seu irmão, e a tirania durou quatro anos. E deixam expresso que as causas do magnicídio foram mais um assunto pessoal, inclusive amoroso”, prossegue Martínez. Com a vontade de investigar – a palavra que Heródoto emprega é historie – nasceu a luta contra as notícias falsas.

Na antiga Roma, os governantes estavam muito conscientes da importância da informação e de como era essencial adaptá-la às suas necessidades políticas, independentemente da realidade. “Em Roma, as notícias se transmitiam fundamentalmente através das imagens”, explica o pesquisador Néstor F. Marqués, que publicou recentemente Un Año en la Antigua Roma: La Vida Cotidiana de los Romanos a Través de su Calendario (Espasa). “Nem todo mundo sabia ler ou escrever, por isso a informação visual era muito importante. A forma mais rápida de difundir a chegada de um novo imperador era cunhar moedas com sua cara”, prossegue. E aí Marqués encontra um exemplo típico de notícia falsa: “O imperador Septímio Severo, nascido em Leptis Magna e que nada tinha a ver com seu antecessor, o malogrado Cômodo, para legitimar seu poder decidiu espalhar a ideia de que ele próprio era o irmão perdido de Cômodo, filho ilegítimo de Marco Aurélio, e por isso a pessoa mais adequada para ocupar o cargo. Nas primeiras moedas que cunhou, se fez retratar com traços muito parecidos com os de Marco Aurélio”.

Notícias e jograis

Também na Idade Média as notícias se propagavam com surpreendente eficácia, embora as condições materiais não acompanhassem o movimento informativo. Claude Gauvard, professora emérita da Sorbonne, investigou as formas de transmissão de informação nesse período: “Um cavalo podia percorrer 30 quilômetros por dia, mas o tempo que se levava para transmitir uma informação podia se acelerar dependendo do interesse da notícia”, conta por e-mail. As ordens mendicantes tinham um papel importante na disseminação de informações, assim como os jograis, os peregrinos e os vagabundos, porque todos eles percorriam grandes distâncias. As cidades também tinham correios organizados e selos para lacrar mensagens e tentar certificar a veracidade das correspondências. Graças a tudo isto, a circulação de boatos era intensa e politicamente relevante. Gauvard cita como exemplo de fake news clássica da era medieval a história do rei, conde ou senhor que desaparece na batalha e reaparece muito depois, idoso e transformado.

Um dos motivos para a construção de notícias falsas naquele período era tentar justificar atos que, de outra forma, seriam intoleráveis, como o magnicídio. “O duque de Borgonha, depois de encarregar em 1407 o assassinato do duque de Orleans, levou a cabo uma campanha epistolar: dirigiu-se às cidades do reino, aos príncipes, à Igreja, até ao Papa. Nessas cartas, argumentava que o duque de Orleans era um tirano que tentou assassinar a família real”, diz Gauvard, acrescentando que houve muitos outros casos de campanhas certeiras de desinformação, que chegaram inclusive a afetar Joana d’Arc. Mas a historiadora acredita que o exemplo mais claro para demonstrar a importância das mentiras são as caças às bruxas e as calúnias contra os judeus, autênticas campanhas de desinformação com resultados catastróficos. “Podem ter sido movimentos populares, mas foram manipulados pelas autoridades”, afirma.

Em um livro recém-lançado, Crimen e Ilusión. El Arte de la Verdad en el Siglo de Oro (Marcial Pons), Felipe Pereda, professor de arte espanhola na Universidade Harvard, estudou a fundo outro escandaloso e apaixonante caso em que a construção de uma notícia falsa teve implicações políticas. Ocorreu na Madri do século XVII, e é um exemplo claro de perseguição antissemita. “Em 1632 ocorreu um auto de fé em que foram queimados quatro marranos (judeus convertidos) portugueses, e outros foram enviados às galés. Todos eles eram acusados de terem profanado um crucifixo dois anos antes. As autoridades sustentavam que o objeto teria resistido a ser queimado e que inclusive teria falado com essas pessoas. Aquele foi um dos grandes escândalos do primeiro Governo do conde-duque de Olivares, acusado de favorecer os banqueiros marranos em detrimento dos genoveses”, explica Pereda.

A perseguição na rua das Infantas, onde viviam aqueles judeus, teve motivações políticas. Como explica o investigador do antissemitismo na Espanha Uriel Macías, o eco daquele caso foi tamanho que Calderón de la Barca escreveu uma obra, El Nuevo Palacio del Retiro, e Quevedo redigiu um furioso panfleto antissemita, Execración Contra los Judíos. Em 1650, Quevedo também publicou La Isla de los Monopantos, uma obra em que pela primeira vez se fala de um complô universal judaico para dominar o mundo, teoria que seria explorada a fundo pelos Protocolos dos Sábios do Sião, uma das grandes falsificações da história, que encontrou ampla difusão no começo do século XX. Historicamente o antissemitismo foi um terreno fértil para plantar mentiras.

A Inquisição se aproveitava dele e ao mesmo tempo o estimulava. “Na imensa maioria das lendas antissemitas é facilmente identificável como as mentiras são forjadas”, diz Macías, relatando que, depois do auto de fé de 1632, foram convocados concursos literários sobre o tema, e a Inquisição distribuiu panfletos anticristãos, supostamente escritos por judeus, que tinham sido integralmente falsificados para agitar e convencer o povo. Aquele processo contra os marranos não só se baseou em provas inventadas como também foi um arremedo jurídico: a única testemunha era uma criança menor de 10 anos, com graves problemas cognitivos, algo teoricamente inaceitável pela Inquisição, que violou suas próprias normas.

As casas dos judeus foram destruídas, e em seu lugar foi construído o convento dos Capuchinos da Paciência de Cristo, com uma capela situada exatamente no mesmo espaço onde ocorreu o sacrilégio imaginário. Ali foram instaladas quatro pinturas enormes, feitas por Francisco Rizi, Francisco Camilo, Andrés de Vargas e Francisco Hernández. “Os quadros reconstroem com documentadíssimo cuidado a cena do crime, descrevem os detalhes dos fatos, identificam cada um de seus protagonistas e, o que é mais importante, transformam os espectadores em testemunhas dos acontecimentos”, escreve Pereda em seu ensaio. O ponto de vista é o da única testemunha da profanação. Três dos quadros se encontram no acervo do Museu do Prado, já que a capela foi destruída no século XIX. Não foram necessárias naquela época as redes sociais para construir do zero a mentira perfeita, para criar uma realidade incontestável, embora falsa.

Outro exemplo da eficácia da Inquisição na disseminação de histórias falsas é o caso do Santo Menino da Guarda, ocorrido em Toledo. Vários judeus e convertidos foram acusados de assassinar um menino que nunca existiu (e que, apesar disso, continua sendo venerado atualmente). Politicamente esse fato inventado em 1490 teve um impacto formidável: foi um dos pretextos para a expulsão dos judeus em 1492. “Nunca ninguém deu pela falta de menino nenhum, nem se encontrou qualquer corpo”, conta a historiadora Mercedes García-Arenal, do Conselho Superior de Pesquisas Científicas da Espanha (CSIC). “Mas montou-se um processo com confissões sob tortura, e vários judeus e judeus convertidos foram queimados. Este fato serviu para sossegar as vozes rebeladas contra a Inquisição e para decretar a expulsão dos judeus.”

Os dividendos políticos das notícias falsas são elevados, e já era assim bem antes da Internet, mas elas sempre necessitaram de um bom caldo de cultivo. As mentiras que se espalham e convencem as massas não surgiram com as redes sociais.

 

*Reproduzido de https://brasil.elpais.com


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