CRÔNICA

Quase perdido



mar

Narrar as delícias do paraíso que a natureza, e só ela, nos reserva enquanto deixarmos ao longe os gritos das crianças brincantes de alegria na beirada do mar que se misturam ao ritmo dos pregoeiros oferecendo seus produtos

Ando pela praia deixando para trás as janelas que me cercam, enfeitadas de suportes, motores e tubos dos respectivos aparelhos de ar condicionado. A visão não é mais dos encanamentos de gás, fios e cabos das operadoras que trazem o mundo exterior ao quadrado nosso de cada um.

Os sons das pancadas da obra do 102 ficam, juntamente com o esmerilhar de dias que viram semanas da reforma do 602, esquecidos apesar de ser (ainda) horário comercial nessa quinta feira de julho.

A cada passo deixo cair um incômodo, uma reclamação, um desamparo. Quem derruba pedaço a pedaço as camadas compostas por placas da armadura da (des)humanidade é o sol.

Seus raios descolam o barulho, o engolir desaforos, o desrespeito, o descaso com o cidadão, as ilusões perdidas, o cansaço (como [d]escrevo pouco essa palavra, tão presente nas lutas infindáveis de tantos que vivem a sensação do tempo e da vida desperdiçada).

No caminho, afundando as pegadas n areia, deixando que ela faça cócegas na planta dos pés, vou me livrando da camisa, da saia. Aumentando a área de contato direto com o calor e a sensibilidade aos fatores do entorno e sua luz encantada.

Os murmúrios do mar composto por diversos sons e ritmos inconstantes começam a penetrar e perfurar mais uma barreira levantada permitindo que se abra mais um sentido. O próximo elemento é a água tépida que brinca de lambiscar a areia. E, nela, estamos nós. Meus pés e eu. Primeiro, um arrepio. O prazer provoca um gosto de quero mais, depois. Agora não. Ainda não.

Falta pousar. Largar os pertences, se entregar ao nada do tudo que te cerca. Sigo procurando o lugar. Distraída, reconheço, fiscalizando as ondas, avaliando as possibilidades e, sim, viajando junto do menino que se lança com sua prancha de pra lá de depois da quina da Pedra do Arpoador numa onda perfeita. Passa riscando a danada, cruza bailando em seu miolo e sai dela, numa manobra final quando, depois de representar com excelência seu papel, a ondulação mingua extenuada marolando preguiçosa em direção a areia.

Pois foi dessa marola que meu olhar se fixou no bailar dos reflexos na água translúcida bem na beira. Só faltam os peixinhos nadando. Mas esses, a gente sabe que não estão na área. Se houvesse cardumes o horizonte estaria salpicado de embarcações pesqueiras, o que não acontece.

Sim, existem outras personagens no paraíso. Mas, diante de sua exuberância natural, se tornam menores. O som incomoda? Troca de lugar. Nem todos conseguem captar as vibrações reinantes? O que importa...

Essa não é uma crônica para relatar problemas e indelicadezas. Seu objetivo é narrar as delícias do paraíso que a natureza, e só ela, nos reserva enquanto deixarmos ao longe os gritos das crianças brincantes de alegria na beirada do mar que se misturam ao ritmo dos pregoeiros oferecendo seus produtos.

No lugar em que começo a escrever, depois de estender a canga, ler um pouco e deixar que meu espírito se integrasse a sintonia, começo a notar uma diferença no vai e vem do mar. Não sei explicar. Defino como uma urgência, um tom mais seco. Menos dolente. Sinal que a maré está subindo.

Tão inexorável quanto o sol que se inclina em direção aos prédios no horizonte. É ali que ele cai no inverno. Não é ele que define o movimento. É a maré que me obriga a ficar atenta, ligada e conectada. É a natureza que informa o momento de puxar a âncora, recolher a vida.

Quando levanto os olhos vejo os habitantes do planeta. Celulares nas mãos e nos olhos conferindo seus próprios “eus” emoldurados pelas imagens de um paraíso. Quase perdido...

 

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador”, do SEM FIM...delcueto.wordpress.com


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