CRÔNICA

Legado olímpico



cueto

Precisa de aquecimento, quando resolve funcionar. Pode ser que sim, pode ser que não

Quem me conhece sabe que sou fã de canetas. Além de viciada, sou fiel as mais práticas e carrego para  todo lado, prontas a desliza-las criando histórias nos queridos caderninhos, a quem também cultuo até suas últimas páginas em branco.

É um sofrimento a troca de qualquer um dos dois itens que, como a corda e a caçamba, frequentam a mochila de sempre. Das maravilhosas canetas tinteiro (que coloriam fundos de bolsas e bolsos), às rollers points e tipo pilot com cores diferentes que usava para descobrir quem era viciado em afanar os objetos do meu desejo nos tempos em que frequentava o aquário de jornalistas da imprensa especializada na Assembleia legislativa de Manto Grosso, em Cuiabá.

Alguém escrevendo em azul turquesa? Devolve! Com direito a mico. Deles e, claro, um dia, meu. Tinha uma carga da mesma cor da minha humilde pilot, trazida numa viagem por minha mãe. Vinho pálido, discreta e, portanto, facilmente reconhecida. Cheguei no parlamentar que assinara a indicação com a cor e perguntei pela minha canetinha. Ele sacou sua linda Mont Blanc. Tive que retirar a gravíssima acusação. Sorte que é, até hoje, um amigo querido. Duro foi aguentar a zoação...

Mas o assunto dessa crônica não é um antigo amor. Trata-se do perrengue atual. Ele vem das Olimpíadas do Rio, em 2016. O legado que não deixa de me surpreender. Nos kits distribuídos no Centro de Mídia e na Casa Brasil, entre outros itens como bolsinha, mochila, caderneta, o utilíssimo cubo multiconector (que democratizou o uso das tomadas nacionais, aquelas implantadas na última década, para esportistas e visitante do mundo), havia... uma caneta!

Depois de finalizar a carga de uma bic dourada francesa decidi botar na roda o exemplar olímpico, já considerado vintage nessa altura do campeonato. Mal sabia o que estava arrumando. Há uma certa semelhança com o evento que representa. Para começar, só escreve quando quer. Para dar a largada quando empaca é uma loucura. Não aceita qualquer papel! Ela, a tinta, está lá, mas demora a aparecer. Precisa de aquecimento, quando resolve funcionar. Pode ser que sim, pode ser que não. Passei a ter uma caneta reserva. Basta começar a procura-la na bolsa que a exemplar olímpica se manifesta. Mas não é em qualquer folha do caderninho que dá o ar da graça. Pensei que o problema fosse da textura do papel que, diga-se de passagem, trabalha perfeitamente sob a pressão de outras coirmãs.

Quando começa a falhar, o truque é procurar o espaço que lhe agrada e, depois que pegar no tranco, voltar para onde havia parado, acredita? Cheia de logos, com a antiga marca “Brasil”, do Governo Federal, Rio Olímpico e Paraolímpico, ela bem é bonitinha, com seus três anéis cromados no seu corpo prateado. Conhecedora de suas manhas, já éramos íntimas e, tinha certeza, seria minha companheira até que o fim de sua carga nos separasse. Ledo engano...

Foi aí que o clique-clique que fazia a ponteira da esferográfica entrar e sair engastalhou. Resolvi desmontá-la, já que não pretendia desistir da parceira tinhosa tão facilmente. Sabe com quantas partes se faz uma caneta brinde olímpica? É incrível, catorze! Carga e mola. Prendedor preto, ponteira superior, três argolas e ponta cromada. Dois cilindros pequenos, um médio e outro mais comprido. Acabou? Não. Na parte superior mais dois suportes para fazer o clique-clique. Desmontei e montei várias vezes tentando acertar o encaixe e fazê-la reviver e nada. Teimosa, passei a tirar a parte de cima e usar o pegador para fixar o entra-e-sai da carga.

Claro que ela continua só escrevendo quando quer, o que anda raro. E claro que voltou a funcionar normalmente quando, para contar as peças e descrever seus elementos funcionais, desatarraxei suas partes separando seus membros.

Absolutamente olímpico, meu legado dos jogos. Não serve pra nada de útil quando preciso dele, mas segue me desafiando e lembrando o (alto) custo que continuamos pagando por nossa bonitinha mas, certamente, ordinária aventura.    


*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Sua produção pode ser conferida em delcueto.wordpress.com

 

 


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