CRÔNICA

Quase no escuro



lua

 

Cronista amiga. Perdi a lua. Segui a rua que não tem mais fim. É assim que a banda toca. Desafinada e crua. Mais nua que a fresta da janela gradeada da sua cela. A que te observa, sem luz ou energia. 

Sinto muito pela ausência, mas não pela falta de notícias que, acredito, tenha te feito perder o sono à minha espera transitória. Como os raios da lua cheia que te alcançam mais que eu nas minhas visitas.

"Caipira do amor, bebeu, transou..." cantarola o vendedor nessa tarde de sexta-feira em que retomo nosso contato. Precisei de sol e de uma ponta, no caso a do Arpoador, me enchendo de coragem (é, porque vontade não me falta) para sair da inércia do nosso monólogo existencial.

Não se preocupe. Não espero respostas às minhas desencontradas e irregulares cartas. Isso nunca me passou pela cabeça.

Considero seu silêncio, querida cronista, voluntariamente isolada do outro lado do túnel, uma benção e sinal convincente da sua não reconhecida lucidez. O que dizer e como reagir a essa descida de ladeira interminável?

Guarde suas forças ocultas para a hora de reconstruir os pilares da humanidade. Andam tão abalados, amiga, que é melhor permanecer na redoma, inerte e indiferente. Nesse movimento nada mais há para ser feito além de esperar outros dias. Que não sejam melhores, mas permitam que a chama da esperança progrida, se fortaleça e aqueça os corações.

Eles andam combalidos, cansados e, o que é sintomático, frios. Imunes a tudo. A dor que atormenta e ao amor que pode aquece-los. Precisamos do básico. Oxigênio. Para começarmos a respirar.

Mais uma vez há uma data no calendário em que parte da população acredita que tudo irá mudar. Doce ilusão que se diluirá ao nascer a primeira lua de janeiro.

Diz a lenda que não haverá perdão para os ímpios e pecadores... São justamente esses os arautos desse "novo" tempo. Que venha e... veremos.

Pela conjunção do verbo já podes ter uma ideia das minhas expectativas em relação a partir desse para melhores mundos. Não posso, por não conseguir com minha nave intergaláctica ultrapassar a camada furada de ozônio planetária, e não devo.

É no "dever" que te enquadro, apesar de reconhecer a falha temporal, no fluxo de informações. Como poderás viver sem a espera? Essa, que pode demorar, mas sempre te alcança? E quando não o faz é em nome e benefício da tua própria sanidade.

A mesma que eu (e meus hábitos e costumes praticamente humanos) recorro ao jurar de pés juntos que, com minha ausência não perdestes nada! O mundo que conhecestes é que perdeu. Um quase tudo de poesia, solidariedade e ética.

Agora, esses são padrões de um passado utópico e cheio de erros e defeitos.

A nova ordem é patriótica (da boca pra fora), careta, mal-humorada e, cruz credo, moralista. O "viva e deixe viver", conceito démodé. O diálogo foi substituído pela munição amplamente liberada. Nada de amor. Tudo na bala, na força, na vala.

Está bruto. E quem espera dias melhores tem que providenciar a cadeira. É melhor esperar sentado e, se puder, na sombra. Aos pés da goiabeira em que Jesus Cristo subiu, com o risco de cair e quebrar o pescoço antes de chegar na cruz. 

Cronista, sinceramente, estou escrevendo assim, à toa, vendo esse estupendo pôr do sol. Enquanto isso, os computadores de ponta da minha nave-lar tentam decifrar essa mensagem evangelizadora surpreendente da futura ministra dos Direitos Humanos.  

Alguma sugestão para compreender esse tipo de "visão"? Estamos quase no escuro! Acho que no seu pior sentido bíblico...


* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. A produção dela pode ser conferida em delcueto.wordpress.com

 

 


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