300 ANOS

Brados de um pau fincado



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Estar na rede é um lugar comum entre mulheres amadas que têm contribuído pra que eu escreva o meu destino (Vovó Mita e Beatriz (filha), em 1989)

É muito arriscado para um ficcionista escrever sobre a sua cidade. Se esse lugar nem é, de fato, o seu torrão natal, fica mais complicado ainda. Mas, e daí...? Já que tá todo mundo bradando que Cuiabá é isso ou aquilo, por conta do tricentenário da capital mato-grossense, também vou bedelhar nesse entorno cuiabano.

Pra lá de pau rodado, tornei-me pau fincado. Engarranchei neste barranco de mundo e, por causa disso, sem mais nem menos, faz tempo que defendo a tese de que a melhor coisa de uma viagem, é a volta. Voltar pra casa é algo que sempre achei demais de bom.

Volta e meia, me pego dizendo que a melhor coisa de Cuiabá é o seu povo. Seja a gente nativa, ou a que foi adotada e adotou esta cidade. Cheguei à conclusão que ninguém passa imune ou impune por este lugar de calor brabo. Comer cabeça de pacu é lenda urbana e nem precisa disso pra fincar o pé aqui. 

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Faz parte da vida dos cuiabanos, ou fazia, ter um parente chamado Nhonhô. Se houver compadresco, melhor ainda (Tia/prima Maria, Vítor (filho) e tio Nhonhô)

(Por causa disso, desse povo que nasceu e/ou vive aqui, ilustro este texto com algumas imagens de gentes especiais que conviveram e convivem comigo e têm parte da culpa por eu ter me tornado o que sou...)

Sejamos sinceros. A cidade nossa é feia, maltratada pelas suas administrações ao longo dos anos. Há sim muitas imagens bonitas que a gente vê diariamente em Cuiabá e estas são registradas pelas memórias coletiva e individual. E, claro, pelos artistas plásticos e pelos fotógrafos que vivem aqui. 

E essa beleza também transparece na criação de nossos artistas que escrevem, poetisam, dançam e cantam nossa Cuiabá. 

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Por falar em compadresco, valorizar essa expressão é também fazer fofocas e artes com a pessoa predestinada (Eu e o compadre Chico Amorim, em 1978)

Em nível de arquitetura e urbanismo, a coisa já começa a mudar. Alguns espaços  chamam a atenção, mas isso é pouco. O centro histórico é, na minha opinião, o único pedaço cuiabano onde o conjunto visual oferece algum valor. Há estilo e estética bem definidos que remetem à uma tradição intencional.

Assim mesmo, suas fiações de energia e comunicação, são um verdadeiro terror aos olhares mais exigentes. E existe um antigo boato que nunca se materializa, a respeito de tornar essas fiações subterrâneas. Quá!

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Abraçar causas boas é enlaçar amigos que vão te ajudar a compor o inevitável que chega com as letras (Luciene, eu e Aclyse, em 2001)

Tudo bem que Cuiabá também tem áreas e bairros onde a abundância financeira fez eclodir, horizontal e verticalmente; prédios, casas e outras edificações urbanas que têm lá a sua beleza arquitetônica, mas não chegam a se constituir numa proposta urbanística coletiva e intencional. Novamente, na minha opinião, essa beleza tem mais a ver com uma espécie de 'oba oba', que é fruto de um estilo 'novo rico'. 

O desenvolvimento da cidade, em especial nas últimas décadas (ou será que desde sempre?), nunca foi pautado por uma proposta planejada e executada, que contemplasse os aspectos sociais. Do esgoto que é despejado sem cerimônia no rio que cede seu nome à cidade, passando pelos estabelecimentos de saúde e educação onde sobram problemas estruturais, e chegando ao transporte público com o fiasco do VLT; ouso dizer que vivemos num pardieiro urbano.

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Ter o sobrenome nominando a rua onde você vive, sei lá... Têm vezes que acho que não é mera coincidência

Uma cidade precisa ter espaços de lazer para as populações de baixa renda. Locais como os parques Mãe Bonifácia, Tia Nair e das Águas, até que cumprem essa função obrigatória. Mas são espaços também frequentados pelas parcelas mais ricas da população. Nos bairros menos afortunados há uma carência incomensurável nesse sentido. 

Vão me dizer que grandes eventos reúnem milhares de pessoas na Orla do Porto. Sim, o Porto é um bairro jurássico, que precisa ser valorizado. A população cuiabana, de todas as faixas sociais, responde em peso a esse espaço e comparece maciçamente ao local, quando ali acontecem eventos. Mas, diante de olhares mais críticos e exigentes, não existe como contra-argumentar, que essa orla é apenas "fachada", é fake, é peneira pra tampar o sol.

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Depois de já ter vidido um tempo bastante razoável, é natural e importante perceber que gerações não precisam conflitar ( Protásio, Rodrigo, eu e Júlio... Danilo (autor da foto)

Não me atrevo a dizer que administrar e socializar uma cidade grande como a nossa, que surgiu espremida em vielas e cresceu convivendo com ausência de planejamentos e explosões demográficas, seja uma tarefa fácil. E daí que buscar uma sintonia fina no desenvolvimento do nosso pedaço, me parece, faz trezentos anos que vem ficando pra depois.        

 E tem muito mais pra se bradar, do que se gabar em Cuiabá. Não se trata aqui de uma crítica a este ou aquele prefeito, governador, deputado o escambau. Trata-se da verdade verdadeira que descobri e digo e repito há vários anos: "os políticos, quando fazem coisas bem feitas, nada mais do que a obrigação fizeram. Quando fazem coisas mal feitas, pau no lombo deles."

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Diga-me com quem andas e eu te direi quem és, vivendo em Cuiabá. E viva o Povo do Livro de MT (Em pé: Lucinda, Leila, Icleia, Larissa, Aclyse, Matheus, Olga, Marília, Elaine e Mário. Ajoelhados: Rosana, Eduardo e eu)

Tenho sido há décadas um construtor desta cidade, pelo viés da cultura e do meu razoável nível intelectual. Pois bem, com esse perfil, cabe-me essa criticidade aguerrida e até feroz, em determinadas circunstâncias. Mas também sempre digo que essa postura 'enraivecida' nenhum prazer me dá. Faço a minha parte, que é tocar o dedo na ferida, doa a quem doer. 

Nascido papa-goiaba (Niterói), de mãe papa-banana (Livramento daqui) e pai gaúcho (Livramento de acolá), finalizo este meu texto/compromisso com a liberdade. Aquela, de opinião. Aceito apartes e contraposições ao que escrevi.

A maior parte da minha vida tem acontecido nesta cidade que completou três séculos. Gosto daqui. Queria gostar mais e ter condições de escrever palavras mais de acordo com a dimensão do meu amor pela cidade. 

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Encontrar mulheres que te completem na arte da vida não é nada fácil. Perdê-las é mais difícil ainda. Vida que segue

 


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