SETEMBRO AMARELO*

Desesperança como problema social



setembro

Setembro Amarelo é uma campanha brasileira de prevenção ao suicídio, iniciada em 2015. Iniciativa do Centro de Valorização da Vida, Conselho Federal de Medicina e Associação Brasileira de Psiquiatria

Começo pedindo desculpas por escrever em primeira pessoa. Não é bem um depoimento pessoal e menos ainda uma história de superação, mas um modo de elucidar uma preocupação com um assunto cada vez mais emergente no cenário sócio econômico atual: os jovens nem-nem, que nem trabalham, nem estudam. Eles representam cerca de 25% dos jovens brasileiros, segundo o Ipea.

O ano era 2006, 17 anos, terminado o ensino médio, não havia passado no vestibular. Mudei de Cascavel (PR) pra Colíder e depois para Sorriso, interior de MT, sendo essa uma cidade de muitas promessas e esperanças pra quem buscava construir algum patrimônio material. Logo em 2006 chega uma crise inédita na produção de grãos. No panorama externo: falências e economia em recessão. No âmbito particular: sem experiência profissional, sem dinheiro pra pagar algum curso, sem perspectivas. 

O sentimento de desamparo e desesperança foram acentuando nas pessoas ao redor e soube de ao menos dois suicídios na rua em que morava. Aí caiu um avião na cidade onde nasci, Matupá, foram 154 mortos, teve copa do mundo e o Brasil foi eliminado nas quartas de final. Enfim, um cenário nada promissor para alguém de 17 anos cuja ingenuidade fazia achar surreal ter que acorrentar a bicicleta vermelha a um pilar para que não fosse roubada. Se aquela ingenuidade cedeu espaço à um pouco de maturidade, não se pode deixar de lado a capacidade de ver algo bom nas pessoas, tampouco de ter esperanças em uma sociedade mais ética e que tenha um olhar atento à dignidade de cada um. 

Depois de muitas buscas por trabalho, eis que consegui alguma coisa na gestão pública municipal. Passados uns meses economizando o salário e já era hora de um novo vestibular. Dessa vez passei e vieram outros problemas porque a vida é isso mesmo, uma sucessão de acontecimentos. 

Aqueles meses tão amargos de desesperança e procura por trabalho, as inúmeras portas que fechavam e as que sequer se abriam podem ter ficado no meu passado, mas é semelhante à realidade de 2 em cada 10 jovens no país. Não é uma questão apenas de dizer que a juventude é apática e acomodada, as coisas vão muito além disso. Sem políticas públicas que olhem pra esse contingente de pessoas, não dá pra pedir muito delas.

Discutimos aposentadoria, reclamamos das mudanças e retrocessos nas relações humanas, mas pouco nos mobilizamos para a desesperança como um problema social. Se escrevo em primeira pessoa e sabendo dos privilégios de não ter conhecido contextos urbanos de violência e aglomerações populacionais, além do fato de ser uma mulher branca, quero mostrar que ainda distante da realidade da imensa maioria de pessoas que vivem neste país, é possível nos afetarmos com as coisas. 

Este último parágrafo escrevo quase forçadamente porque não queria encerrar sem alguma proposição mais concreta: políticas públicas sérias e preocupadas com a sustentabilidade da vida em uma perspectiva transgeracional. Não é uma receita fácil de ser executada, mas tenho certeza que ao menos considerar as relações humanas afetivas mais do que as relações comerciais e os sentimentos de modo mais objetivo são algumas, senão as únicas, possibilidades para começar a rever o quadro lastimável de crescimentos dos casos de doenças mentais. 

*Setembro Amarelo é uma campanha brasileira de prevenção ao suicídio, iniciada em 2015. É uma iniciativa do Centro de Valorização da Vida, Conselho Federal de Medicina e Associação Brasileira de Psiquiatria.

andhressa

Andhressa Sawaris Barboza é jornalista e cientista social com mestrado em Cultura Contemporânea

 


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