Roberto Boaventura de Sá

Samba mequetrefe



O samba-enredo da Mangueira para o Carnaval/2013 foi definido. Isso nos diz respeito porque “Cuiabá: um paraíso no centro da América” foi o tema patrocinado pela Prefeitura para que a cidade fosse homenageada. Foi muita grana! Desnecessidade.

Relevando os altos custos com esse despropósito, estive na etapa de escolha do samba-enredo, ocorrida aqui, há semanas. Até me empolguei com o que vi em termos de criação para o gênero. Porém, o vencedor local concorreria com bambas da gema. Eles ganharam.

Eis a letra do samba vencedor que nos fará a “graça”, mas não de graça: “Dai-me inspiração, oh Pai! pois em meus versos quero declamar/ A capital da natureza, eternizar/ Embarque na Estação Primeira/ O mestre a nos guiar/ Bambas imortais,/ O eldorado dos antigos carnavais/ Num relicário de beleza sem igual/ Fonte de riqueza natural/ Cidade formosa... verde... rosa/ Teu nome reluz, Vila Real do Bom Jesus/ (Refrão): O apito a tocar, preste atenção!/ Mistérios e lendas de assombração/ Segui com coragem, mostrei meu valor/ É a Mangueira a todo vapor (bis)/ Em cada lugar, um "causo" que o povo contou/ Em cada olhar, na arte num poema brilhou/ Um doce sabor, tempero pro meu paladar/ Procure seu par, a festança já vai começar / Na benção de São Benedito/ Eu vou dançar com o meu amor,/ O sonho enfim chegou ao paraíso,/ Emoldurado em cintilante céu azul/ Bendita sejas terra amada!/ O coração da América do Sul/ É hora de darmos as mãos/ Agora seguir a missão/ Sustentar na mesma direção/ Mangueira... o trem da emoção/ Viaja na imaginação/ Meu samba é madeira,/ É jequitibá/ É poesia dedicada a Cuiabá”. É isso, cuiabanos!

Com o risco de errar, “profetizo”. Começo afirmando que o pedido de inspiração ao “Pai” – à lá introitos das epopeias clássicas – não foi atendido. Se a Mangueira, com esse samba, sem a menor inspiração, cheio de rimas pobres, tolices várias, e ausências mil, não for rebaixada para o segundo grupo, deverá agradecer seus orixás eternamente. Se for campeã, então, ficará devendo submissão aos santos para o resto da vida. Êta sambinha ruim!

Na verdade, a miséria desse samba não está no dito, mas no não-dito. São as ausências de signos cuiabanos (como o pequi, o “petche com matchitche”, a bocaiuva ou “chicrete cuiabano”, as mangueiras que abundam nos quintais, praças e ruas, o caju, o pacu, o siriri, cururu, Zé Bolo Flô, Maria Taquara, as moreninhas e moreninhos de tchapa e cruz etc, et alii) é que lhe dariam consistência artística.

Esse conjunto de ausências a respeito do que seja Cuiabá, ainda que muito folcloricamente, é que corresponderia, resguardadas as diferenças, aos “Doces Bárbaros”, um dia tão belamente cantados pela própria Mangueira, quando homenageou a Bahia. Lembram-se do “Me leva que eu vou... Sonho meu... Atrás da Verde e Rosa só não vai...”?
Pois é. Aquele enredo é e será por muito tempo cantado alhures. Já o que graceja Cuiabá, não. Talvez nem no Sambódromo ele venha a empolgar. Se vier, é ação de vodu; ou seja, não tem explicação natural.

Dessa forma, o que o carnavalesco da Mangueira conseguir extrair de um samba tão medíocre já é vitória para a Escola e para Cuiabá, que já pagou pela festança na Sapucaí. Sua tarefa será a de fazer milagre com o tal jequitibá, árvore típica da Mata Atlântica, mas que quase já não há em canto algum.

Cuiabá merecia e até dava um samba melhor. De antemão, a paga como dinheiro público não valeu. Assim, Mangueira, provavelmente nem “todo mundo te conhece(rá) ao longe/ Pelo som dos seus tamborins/ E o rufar do seu tambor”.

*Roberto Boaventura da Silva Sá, dr. em Jornalismo/USP; professor de Literatura/UFMT 


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