Juliana Curvo

É preciso coisificar



Não sei exatamente o horário em que nasci. Minha mãe não tem muita certeza. Ela diz que foi na hora do almoço, tipo umas onze da manhã. Mas, ela não tem muita certeza e cada ano que passa, ela se distancia mais desse ano e das lembranças sobre ele. Nasci em hospital particular e sou a filha caçula de um casal que não esperava mais ter filhos.

Nasci no dia nove e mesmo algum tempo depois, consigo afirmar que era um dia quente, afinal, em Cuiabá os dias 09 de novembro geralmente são quentes. A única filha, caçula e nascida em uma cidade diferente dos irmãos. Desde cedo tive dificuldades para saber de mim e de querer saber dos outros.

A inadequação foi piorando com os anos, tendo o seu pico na faixa dos vinte e pouco. Daí veio o amor e apaziguou as sensações adversas. Foi nesse tempo, do amor, nem tão distante assim, em que pensei em ser música de ninar. De fazer dormir e carinhar bebês, de aninhar gente no braço, de melodiar os dias intermináveis, dos poucos de cor cinza e asfalto molhado, colorido com reflexos. Tornei-me mãe, nesse tempo, e passei a acreditar que dias melhores existem, sempre.

A vontade de tornar-me algo continuou e confabulou com uma necessidade de ser. O nome das coisas, o substantivo, é uma classe segmentada e estagnada. Ou é uma coisa, ou outra. Para a classe dos substantivos, sou nome próprio e não coisa. Impossível virar música de ninar, para a classe gramatical. Só que é preciso deixar de ser, de quando em vez. Simplificar, ser comum, objeto, coisa. E se há direito ao grito, então eu, também, grito: É preciso coisificar.

Tornar-se coisa, alguma coisa. Virar objeto, substantivo comum e deixar de ser nome próprio. Coisificar, tornar-se útil, existir para praticar, ser a práxis. Um objeto revolucionário, igualitário e justo. Eu não desejaria ser um substantivo pequeno burguês. A razão da precisão, não consigo explicar, apenas é preciso tornar-se alguma coisa. Escolho ser trem, de passageiros, para viagens quaisquer. O duro, de ser simples e não próprio, é a incapacidade de continuar carregando teu poema no bolso da camisa. Pois sim, ainda carrego aquele poema que você escreveu num pedaço de jornal, no bolso da camisa xadrez, que você não gostava que eu usasse. Mesmo assim, quero deixar de ser isso e, volto a repetir, é necessário tornar-se. Não gostaria que pensasses que é por ti, pois não tenho tanta certeza disso. É muito provável que seja apenas mais um capricho, uma noite em claro, alguma crise, alguma falta, nada nominável.

Sou trem e paro nas estações que quero. As pessoas entram e levo para onde elas querem. Ando sempre carregada de gentes, de almas, de saberes, amores, poemas, comidas prediletas, flores da estação, frutas da época. Pouco importo com a idade, cor e saberes de quem entra em mim. Preocupo mesmo com a longevidade da viagem e o tempo da mesma. As longas cansam e são sofridas na volta. Alguns passageiros dão prazer, outros nem tanto. Pouco importo, sou trem, substantivo comum, inanimado, sem sentimentos, só carrego, só transporto, de lá pra cá. Até que canso, sim, os simples também deixam de ser (quem não deixa?).

Decido que devo parar, que é hora de parar e não deixar mais ninguém entrar. Decido não sair do lugar, ficar parado, batendo na mesma estação. Como se estivesse esperando, com teu poema no bolso da camisa, em mais um aniversário. Pra quem sabe você voltar, para comermos um bolo, ou não, que já temos até certa idade. Quem sabe um chá, de gengibre, pra manter nossa voz. Eu passo o café com baunilha, que o cheiro toma conta da casa. Coloco o disco do Caetano, leio poemas do Neruda e nem vou perceber que vai ser mais um aniversário e que tenho dificuldades para lidar com esse dia.

*Juliana Curvo é professora de literatura e colabora com o Tyrannus Melancholicus (jcurvo@gmail.com)




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