Mínimos Quadrados Ordinários (trecho)



Mato Grosso

À beira da estrada, todas as noites, senta-se João. À espera de seu único filho que, há dezoito anos, foi trabalhar num garimpo no Norte. Da sala, com os sons da televisão, vem uma luz azulada quase aos seus pés. João é apenas um vulto sob a mangueira. De vez em quando, a esposa aparece na porta. João, ela chama. A brasa do cigarro fica mais intensa, ele está ali. Terminada a novela, a esposa se aproxima. Pousa, com delicadeza, a mão em seu ombro. É tarde, João. Ao erguer-se, ele lança um último olhar pela estrada deserta, apanha o mocho, segue a mulher em direção à casa. Você ainda acha, João, que ele vem? Sem responder, João deita-se na cama. Atentos aos ruídos que a noite produz lá fora.

(Conto vencedor do concurso Palavra Aberta, 2006)
Nota: texto ficcional integrante da série “curtos e cortantes” composta por “Histórias que a gente ouve por aí”.



Limites

Asfaltaram a rua de casa até os portões da Sadia Oeste Ltda. Era uma rua bastante estreita. Caminho de pescadores. Por falta de criatividade, até mesmo o bairro é chamado hoje de Alameda. Caminhões chegavam e partiam, em alta velocidade, a todo momento. Durante anos nos acostumamos a ver o que sobrava dos cachorros apodrecendo ao sol. Rapidamente os moradores descobriram que abastecer os caminhoneiros com álcool era uma atividade muito mais rentável do que a pesca. Seus bares, improvisados no primeiro cômodo da casa, já não fechavam nem de madrugada. Meu irmão dizia que pelo tom da pele era possível perceber quem era forasteiro.

(Conto publicado no jornal Folha do Estado em 2007)
Nota: texto ficcional integrante da série “curtos e cortantes” composta por “Histórias que a gente ouve por aí”.

Voltar  

Agenda Cultural

Veja Mais

Últimas Notícias

Mais Notícias

Newsletter

Preencha o formulário abaixo para receber nossa newsletter:

  • Nome:

  • Email:

  • assinar

  • cancelar


Copyright © 2012 Tyrannus Melancholicus - Todos os direitos reservadosTrinix Internet