CRÔNICA

Gente que acontece em Paris



Foi assim. Sonhei com o meu querido amigo Chico Amorim, o morto mais vivo que existe em Cuiabá (acho que essa frase é do Lorenzo Falcão, mas que eu assino embaixo), pois é lembrado todos os dias em qualquer bate-papo dos amigos das mais diferentes tribos que ele conquistou ao longo do tempo. Que no caso dele, lamentavelmente, e para tristeza de todos nós, órfãos de sua presença, não foi tão longo como deveria.

Pois bem. No sonho, eu estava sentada em um café com uma amiga que não consigo lembrar quem era, quando vi o Chico passar, todo sorridente, vestido de bermuda e camisa branca. Saí, correndo para encontrá-lo, mas, quando cheguei lá fora, ele tinha desaparecido. Em seu lugar, milhares de pontos de luz, piscavam por toda a rua parisiense. Foi lindo. Quando acordei, me lembrei imediatamente de uma de suas expressões prediletas (e olha que ele tinha centenas de outras geniais), que era exatamente... “abalou Paris em chamas”, quando se referia à alguém que tinha feito algo notável (ou não).

Como era do seu viés, com uma dose (e aqui a palavra dose vem a propósito, com segundas, ou primeiríssimas intenções) de fina ironia. E então, resolvi, embora tardiamente, comentar o fato, ocorrido a algumas semanas, da passagem da Dilma Rousseff por aqui. Gente, ela abalou Paris em chamas! Sim, ela mesma, a minha, a sua, a nossa presidenta.

Também, pudera. Veio convidar o empresariado francês a investir no Brasil, na construção de aeroportos, em cidades com mais de cem mil habitantes. Isso sem falar da possível compra pela FAB de caças Rafale, do grupo francês Dassault. É claro que foi um sucesso! Quem não quer tirar a sua lasquinha?

Para De Gaulle, o Brasil não era um país sério

Aliás, levei um susto tremendo quando, ao passar por um corredor de metrô, vi um banner imenso da capa da revista econômica Challenge, com um close sorridente da Dilma, onde se lia embaixo: Brésil – Le pays où il faut être (Brasil, o país onde é preciso estar). Parei e fiquei olhando o cartaz que nem uma boba. As pessoas em volta, na correria de sempre nem percebiam eu ali parada, estatelada que nem dois de paus. A vontade era dizer : - ei, eu sou (unindo os indicadores) "assim" com esta mulher. Para um país onde um presidente, o Charles de Gaulle, teria dito : -o Brasil não é um pais sério!, é realmente incrível.

Fiquei na dúvida. Mudou, a França? Ou o Brasil? Estaria certo o escritor austríaco Stefan Zweig, que na sua obra, publicada em 1941, preconizava que o Brasil seria um país do futuro? Sei lá, não sei não… O fato é que brasileiro aqui está com a corda toda. Eu tenho sentido isso na pele. Quando sou apresentada a alguém e digo a minha nacionalidade, logo vem um sorriso enorme seguido de um suspiro: Brasileira? Ah, o Brasil… Confesso que por um lado é bem legal, dá um baita orgulho, mas, por outro, fico a falar com meus botões ( nossa, essa é bem antiga), isso não é um equívoco às avessas?

A velha cegueira colonialista que só enxerga o que interessa, sempre com aquela pitada do exótico, do folclórico? Antes, nos viam como um ‘paísinho’ marca vôte (o que nunca fomos), e agora viramos um paraíso terrestre (que não somos). Sei lá, não sei não… digo a mim mesma novamente. Entre a passagem da Dilma e a passagem do Chico, fico com a do meu amigo. Chico Amorim, ele sim é que abalou Paris em chamas! De verdade, sem nenhuma ironia.


*Gloria Albues corresponde para o Tyrannus diretamente de Paris


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