OLHO DA RUA

Excessos contra excluídos são comuns*



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Mesmo em condições de voltar para casa, muitos preferem continuar morando e trabalhando na rua

Num país como o Brasil, os excessos contra os excluídos acontecem com certa frequência. E o pior: o autor, em muitos casos, é o Estado. Em outros, a intolerância parte do próprio cidadão.
Essa constatação esteve na pauta do último dia de atividades do SemiEdu (Seminário de Educação), evento realizado entre 23 e 26 de novembro na UFMT. Houve relatos de pesquisadores da UFMT, e de fora, sobre estudos realizados junto a populações marginais.

Um dos convidados foi Jaime José Zitkoski, professor vinculado à Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Na UFRGS existe, desde 2007, o “Projeto Começar de Novo”, desenvolvido com a finalidade de dar assistência a moradores de rua. Pessoas que, por algum motivo, deixaram suas casas e suas famílias, para dormir em calçadas e vagar pelas vielas, especialmente das grandes cidades.

No caso específico de Porto Alegre, eles foram pressionados pela Polícia, Prefeitura e setores do comércio a deixarem as ruas do centro da cidade e se deslocarem para a zona rural, a 25 km da capital. Os que habitam os locais públicos são vistos como incômodo, problema, sujeira. E como a ideia era segregar, os setores que tinham aversão pelos miseráveis sugeriram criar uma colônia agrícola. Como se vê, o plano era levar para bem longe `aquela gente´.

“Esses moradores de rua já eram catadores de papelão, de latinha e de outras coisas que têm valor na reciclagem do lixo. Eram catadores individuais e entregavam aquilo para os atravessadores, que compravam por um preço muito baixo, para que eles tivessem um ganho ali. Mas moravam na rua, catavam os materiais das 18 às 21 horas, que é o chamado "horário nobre" deles aproveitarem os restos que estavam nas calçadas. Ajudavam na limpeza da cidade vendendo esse material”, explica Zitkoski.

barbara muller

Jaime José Zitkoski é graduado e mestre em Filosofia e tem doutorado na área de Educação

A partir desse cenário, o projeto criou a sua primeira face: a extensão. Os estudantes rompem os muros da universidade e interagem com os moradores de rua no sentido de identificar as causas de levarem uma vida fora de casa e suas expectativas. Fora isso, há o viés da assistência também, de criar condições para que aquelas pessoas não fiquem ociosas.

Segundo Zitkoski, outra possibilidade é colocar os desabrigados em contato com suas famílias. “O `Começar de Novo´ tenta levantar a autoestima deles para, de repente, colocá-los novamente em contato com a família. Não que eles sejam obrigados a voltar, mas alguns aceitaram sair um pouco do vício das drogas ou da bebida e voltaram a ter vínculo com seus familiares. Mas o problema é complexo, porque muitos preferem ficar na rua participando do projeto”.

A outra face do projeto é a pesquisa. A partir das observações e ações feitas em campo, os estudantes desenvolvem trabalhos na graduação e na pós. O próprio Zitkoski orientou duas dissertações de mestrado. Um dos trabalhos foi desenvolvido por Marcio Hoff, entre 2008 e 2010, intitulado Assentamento Trinta de Maio: ações e contradições entre educação e trabalho em uma cooperativa de produção agropecuária. O outro foi de autoria de Roque Grazziola, com início em 2009 e término em 2011, sob o título As pessoas em situação de rua em Porto Alegre e seus dramas, tramas e manhas: a cooperação e solidariedade como forma de humanização.

Muitos desses moradores ainda continuam habitando as ruas da capital gaúcha, inclusive os que possuem renda. Para o pesquisador, isso se deve ao fato deles já terem criado uma identidade com o local, e escolhem não retornar ao convívio familiar. Ainda assim, o cientista vê ganhos com o projeto de pesquisa e extensão.

“Eu acho que o principal ganho é que eles começaram a viver, a se valorizar mais. Então, eles não têm aquela vergonha de se identificar como moradores de rua. O maior ganho é esse: aumentou a autoestima, e aumentando a autoestima eles procuraram satisfazer outras necessidades: querem estudar, acessar internet, participar do mundo que é contemporâneo a nós. Eles aprenderam, hoje, a saber um pouco mais. Eles têm melhores condições de viver um pouco mais dignamente”.

Outro pesquisador externo que participou do SemiEdu foi João Clemente de Souza Neto, professor do Mackenzie e da PUC, em São Paulo. Na mesma linha de Vitkoski, Clemente estuda as populações excluídas. Além da miséria que as acomete, são vítimas da necessidade imposta pela política de `higienizar´ as cidades. “Ir para a rua é um resto de liberdade que existe, mas não se perdeu a condição humana. Quem está ali tem um rosto. Eu não falo de um sujeito abstrato: ele tem carne e sentimentos”, defende.

No último levantamento feito pelo IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística], em novembro de 2012, o número de moradores de rua no país atingia a marca de dois milhões.

Depois de ter sediado a Copa do Mundo, o Brasil já se prepara para receber os Jogos Olímpicos, em 2016. É mais um motivo para a política, com a sanção da população, tirar das ruas aquilo que ela julga impróprio. Sem, é claro, criar uma solução para as pessoas que têm na rua a sua única morada.

*Texto reproduzido do site http://www.revistafapematciencia.org/

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