CRÔNICA

Thingo



Carlos Addor de Souza, o Thingo (1896-1972)

É possível vagar pela cidade e localizar o passado, rejuvenescendo-o na memória; dar de frente, por exemplo, com o Palácio da Instrução de 1903 e encontrar figuras exponenciais da nossa cultura, concretizá-las vivas no pensamento com o vigor represado de intelectualidade, como sentindo a presença de Estêvão de Mendonça, de quem Monteiro Lobato ao retornar de Cuiabá afirmou...“ é ele precioso diamante Culliman perdido por lá”. – E quantos diamantes foram soterrados no passado, no ermo esquecido do Centro-Oeste. Das pedras mais preciosas às menos, garimpamos outras de quilate sociológico. Caminhar, encontrar vestígios da Casa Rosa na Praça Luís de Albuquerque, ir adiante, descer a Rua Cândido Mariano e ingressar, à esquerda, na hoje Avenida da Prainha, a Rua Ten Cel Duarte, e ser capaz de encontrar o “locus” da antiga casa de Carlos Addor de Souza, o tão amável Thingo. Nascido em Rosário-Oeste, em nosso Estado, em 21 de março de 1896, e recebido noutra vida em 6 de junho de 1972, com 76 anos de idade. Militar corneteiro do Forte de Coimbra do Exército Brasileiro veio radicar-se aqui, como bom cuiabano.

Esta é a hiperalgia moral, a sensibilidade de investigar extratos sociais; isto é, experimentar o belo, estremecer valores adormecidos, que embasaram a cuiabania. Thingo também compôs a orquestra do concerto histórico de Cuiabá, a qual bem agasalha, porém deve repelir saqueadores. Compôs família com Philomena Freitas de Souza, dona Sinhá, tronco genealógico de seis filhos, estando vivos: Odiles Freitas de Souza e Odilza Freitas de Souza (desembargador e advogada, ambos aposentados). Possuía ele determinação de vida para ser comerciante, empenhado ainda no cuidado da saúde pública. Torna-se autodidata nestes sertões desvalidos de outrora, no

Thingo, homem proficiente que trabalhou pela saúde dos cuiabanos, também foi fiscal da balsa do rio Cuiabá

clarear do século XX, a tomar para si o projeto da cura pela homeopatia, um fim conquistado. Adquiriu livros, procurou contatos com as indústrias homeopáticas: Coelho Barbosa, Catedral, Almeida Prado; e licenciou-se com a sua botica. No cerrado, na beleza da floração buscou as flores, folhas, cascas e raízes, como caroba, sene, quina, fedegoso, arnica etc. Do Aricá, São Vicente, Ponte de Ferro, ou de Chapada dos Guimarães, do Coxipó do Ouro, do Abrilongo desciam os tropeiros que apeavam no pátio em frente da morada e do comércio de Thingo. Todos recebidos e acolhidos. Belíssimo folclore: o cantante chiar do carro de boi anunciando a chegada, o linguajar do caboclo descontraído e puro; e ainda as trovas, os muares sonolentos à sombra, as cangalhas e as bruacas. No armazém, a carne seca, a banana e a mandioca, o doce de leite e a rapadura, o cacau e o mel de abelha.

Na vizinhança, o irmão, Alexandre Addor de Souza, ferreiro, os Sabo Mendes, Jacintha Pinna, com a devoção dos milagres de Santa Terezinha, em capela doméstica. Ouviam-se cânticos e novenas do louvor da fé. Beleza da capital sertaneja, como versejava José Fragelli. Thingo possuía sempre o antídoto, a contrapeçonha, o paliativo, o lenimento, o antisséptico, o sedativo, o vermífugo, buscados nas ervas ou nas gotas homeopáticas. Cataplasmar, pensar feridas, aliviar dores. Jamais se deu por charlatão, era respeitado, ouvindo os profissionais da saúde. Pedia o preço de quem podia pagar o frasco homeopático, mas as poções constituíam-se em socorro gratuito – ato de doação. Assim, atingiu a virtude teologal da caridade; exerceu-a naturalmente sem beatice. Se provia do remédio, oferecia o teto com amor paciente.

Do antigo fiscal da balsa sobre o rio Cuiabá, das mãos adestradas do marceneiro, do fabricante de velas da cera de abelha resultou o homem proficiente para servir à saúde da população. Se não possível o obelisco dos imortais, que nunca o foram, haja nas mentes cuiabanas o reconhecimento do mérito de Thingo, brindando a sua memória nos anais da quase tricentenária cidade verde, que padecera isolada, todavia sustentou o bastão da história.



*Benedito Pedro Dorileo é advogado, e foi reitor da UFMT

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