CRÔNICA

“Querida amiga reclusa.



cueto

 

Antes de mais nada gostaria de pedir desculpas pela ausência. Não consegui chegar em tempo hábil na última lua cheia para, usando seus raios, alcançar a fresta da janela e “invadir” sua cela no retiro voluntário.

Andava “pluct placteando” e perdi o bonde da carona lunática espectral. Falha minha envolvido que andei acompanhando os inenarráveis movimentos para o desenlace pós recesso no país. Fim de férias para várias pendências nacionais, estaduais e municipais. Para não ampliarmos excessivamente nosso raio de observação científica.

Pulei de galho em galho, tal e qual macaca de auditório acompanha shows dos ídolos décadas atrás do milênio passado.

Sim, sei que você vai me repreender por usar o termo animal, em vez do simpático e politicamente correto tiete. Culpa dos sofisticados sistemas de minha moderníssima aeronave. Aquela que não consegue ultrapassar a atmosfera e me cuspir para além da estratosfera. Seguiria tranquilo minha viagem intergaláctica. Tomamos embalo. Ela, a nave mãe, comigo dentro, mas acabamos ping pongueando sem furar o bloqueio celestial.

Diante disso, só me resta passar para o plano B da viagem interestelar e continuar por aqui recolhendo dados do declínio inexorável dessa civilização que tantas maravilhas já revelou ao universo. É muita informação para ser armazenada. Dessa missão até tenho dado conta. Quem não está conseguindo acompanhar e decodificar os eventos é a máquina na cabine de comando da nave que habito.

Não, não vou entrar em detalhes para evitar traumas e choques na sua lenta – e frágil – recuperação. Acontecerá com você, amiga, o mesmo que ocorre com o computador de bordo. Chamará tiete de macaca de auditório e político de ladrão e sem vergonha. Assim mesmo. Generalizando que é para colocar toda a farinha no mesmo saco. De preferência cm uns corózinhos, aqueles bichinhos, que é para inutilizar de vez o fardo inteiro. Tudo podre.

E é aí que mora o perigo. Porque corre o risco da minha cronista preferida levar um “teje preso”. É fia, estamos nessa vibe. Com direito a projeto de lei proibindo “defamar” a categoria como um todo. De autoria renomada e apoiado por muitos dos que pregam crença que não creem nem moral que não praticam.

Sorte que a novidade não atingirá seres como eu, de outro planeta. Só que este não é o seu caso e a desculpa da insanidade não será considerada nas cortes judiciais do seu país.

Tatua o nome do seu amado no ombro? Tira a camisa numa cerimônia pública para exibir a obra de hena? Usa seu precioso tempo no seu ambiente de trabalho para pedir nudes pelo seu aplicativo? Votou sim? Não? Então não terá a menor chance de pedir imunidade para abusar da impunidade.

Insanidade pouca não anda fazendo verão por aqui. Foca, amiga querida. Contenção de gastos é a ordem geral. Excluindo para eles que continuam mandando ver em emendas, explodindo de cargos e, claro, levando algum por fora.

Por falar nisso, essa é a razão dessa missiva fora de lua. Ainda estamos a uma semana da lua que nos une por seu raio. Não tenho ideia de onde estas mal traçadas linhas irão encontra-la, minha enluarada.

Seu reduto do outro lado do túnel, o Pinel, está ameaçado, se já não foi esvaziado! Por isso, mando essas instruções por aquele enfermeiro gente boa.

Não se preocupe, vou busca-la onde estiver. Na próxima cheia nos encontramos na ponta do raio mais longo de luar. Até lá, É fria, a frente. Se cuida.       


*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Sua produção pode ser conferida em https://delcueto.wordpress.com/


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