PROJETO

Cartas ao Mundão



j. damião

mundão

Adolescentes foram protagonistas de seis curta-metragens exibidos em sessão fechada no Cinema São Luiz, no Recife

Aos 16 anos, Rodrigo* nunca tinha entrado em um cinema. Na terça-feira (8) , sentou em uma das cadeiras de veludo vermelho do histórico Cinema São Luiz, no Recife, e encarou a própria imagem no telão. Privado de liberdade por cumprir medida socioeducativa em meio fechado na Fundação de Atendimento Socioeducativo (Funase) de Pernambuco, ele e os colegas da unidade de Vitória de Santo Antão (cidade localizada a 50 quilômetros do Recife) foram os protagonistas de um dos seis curta-metragens exibidos em sessão fechada. É o resultado do projeto Cartas ao Mundão. Mas além de retratado, o jovem foi também o retratista: ele e adolescentes de outros cinco espaços foram os realizadores de todos os filmes exibidos no local.

O Cartas ao Mundão, financiado pela Universidade Federal Fluminense (UFF) por meio do projeto Inventar com a Diferença, trabalhou com cerca de 150 jovens dos centros de Atendimento Socioeducativos (Cases) Santa Luzia, Jaboatão dos Guararapes, Vitória de Santo Antão, Abreu e Lima e Cabo de Santo Agostinho, além do Centro de Internação Provisória (Cenip) Recife.

A primeira etapa foi de cineclube. Tanto os professores das escolas que funcionam nas unidades foram capacitados a trabalhar esse formato de grupo de discussão de cinema e também com o tema de direitos hmanos; como os adolescentes assistiram a uma série de filmes de diferentes formatos – de documentários a animação – com temas como racismo, desigualdade, homofobia.

A segunda parte foi a realização de oficinas para que cada unidade criasse seu filme-carta: um curta-metragem direcionado a alguém que está no “mundão”. “A ideia do filmes-carta é conectar esses dois mundos. O que se passa na privação de liberdade com o chamado mundão, um termo tirado do próprio vocabulário dos meninos [que significa tudo aquilo que está fora da unidade de internamento]. Seja um desejo de transformação da própria vida, seja uma demonstração de afeto para as mães”, explica o idealizador do projeto, Caio Sales.

Cada grupo produziu um curta-metragem com estrutura simples de gravação e linguagem livre, formulado do início ao fim pelos internos, com mediação de dois oficineiros. O que mais Rodrigo achou importante foi “ter o vídeo para mandar pro mundão para que o pessoal possa ver que a gente não é só preso”, disse. “Ajuda a quebrar um certo preconceito que a sociedade tem”.

Simbólico

O cinema escolhido é simbólico, segundo o idealizador do projeto. O maior cinema de rua de Pernambuco, palco dos principais festivais audiovisuais do estado. Um cinema histórico para fazer história nas vidas de meninas e meninos como Rodrigo. “Eu nunca imaginava que ia fazer um vídeo e aparecer no cinema. E quando apareci aí é que quebrou todas as expectativas, aí eu vi que mesmo que nada é impossível, que dá para ser alguém na vida”, disse Rodrigo, cujo sonho é cursar direito depois que ganhar a liberdade.

Jaime*, de 19 anos, autor do título e da música do filme do Case de Cabo de Santo Agostinho (cidade na Região Metropolitana do Recife), lembra do São Luiz. Foi a única vez que entrou em um cinema. Talvez quando tinha 10 anos, calcula. Para ver um “desenho”, que ele diz ter despertado sua criatividade. Agora, o São Luiz foi para o jovem um espaço para pensar no futuro. “[Ao entrar novamente no cinema] eu penso em muitas coisas. Eu posso ver a liberdade. A gente ainda vai voltar pro Case, mas o dia vai chegar, quando Deus quiser, a liberdade de vez da gente”.

Ao fim do filme, aguardando o veículo da Funase para irem embora, a liberdade passava como em uma tela, do outro lado da porta de vidro da entrada do cinema. Uma fileira de jovens assistia o engarrafamento, os vendedores ambulantes, os motoristas apressados. Os rostos eram de felicidade.

Filmes disponíveis online

Assim como os exercícios feitos durante as oficinas, já liberados online, os curtas vão ser veiculados no Youtube. A previsão é para a próxima semana. No Facebook do Cartas ao Mundão será possível saber quando o material estará no ar. Lá também é encontrada a lista de filmes exibidos durantes os cineclubes feitos nas unidades.

Hoje, em sessão fechada, os filmes foram exibidos sem proteção às identidades dos adolescentes, mas para o público é necessário esconder os rostos dos jovens com tarjas e rostos desfocados. A exigência é do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). “Talvez tenha sido um ponto negativo dessa primeira experiência, não saber como lidar, como essas imagens podem ser produzidas sem a gente, na hora que for publicá-las, colocar aquelas máscaras. Isso eu acho que a gente tem que trabalhar muito como resolver”, explicou Caio Sales.

A segunda edição do projeto está em negociação e deve começar ainda no segundo semestre, segundo a Funase. Os filmes-carta produzidos pelos internos serão inscritos em festivais de cinema, especialmente aqueles com proposta experimental ou que sejam ligados ao tema de Direitos Humanos. (da Agência Brasil)


*Todos os nomes de internos são fictícios, com o objetivo de preservar as identidades dos adolescentes, conforme determina o Estatuto da Criança e do Adolescente


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