POESIA

Nuno Gonçalves

la sirena 
(Canto primero)
# Brumas de Morelos

 

Terra. Amor. Umidade.
Minha sede, um palácio de
                               fogo, ar & ossos
               de criaturas novas
com imensos jardins
               onde transitam automóveis verdes
e a interminável memória de todas as gerações perdidas...
Terra. Amor. Umidade.
Cultivo outra vez o chão sem chão
  e minhas mãos de passarinho
    desgarradas & insensatas
tatuadas como um alebrije enfeitiçado
regressam ao arado 
    primitivo & selvagem
de onde em verdade
    nunca haviam saído...
Terra. Amor. Liberdade.
Lágrimas me despetalam
nessas montanhas enchilladas
onde cavalos fantasmas
relincham corridos profanos
e nos alpendres os pássaros
assoviam reggae, jazz & lamentos variegados
embalando as criaturas novas
que em meus pulmões florescem:
sóis e luas e coelhos de pelúcia
                                brincando no jardim e
as crianças com seus sonhos de crianças
soprando uma vez mais a delicada brisa
que me afasta de mim e aproxima
    meu coração ao coração azul da ilha...

 

Canto Segundo
# Regresso ao mar ou a terra uma vez mais abandonada

 

Vengo a recorrer um titulo
trago asas nos pés
e não espero muitas coisas do dia que amanhece
entretanto sigo 
                 ávido & faminto
desnudo y con las manos abiertas
recolho as flores ressecadas no caminho
e os sonhos esbagaçados que deixei
nas sarjetas dessas calles retorcidas
trago um cálice & un par de aretes
                 prata de Taxco
                        ou Zacatecas
e eis que encontro amoroso abrigo
novas memórias novas vísceras que
                         pouco-a-pouco
             a velhos afetos se entrelaçam
como um tapete persa
     ou uma lenda sufi
senda mística, tortuosos caminho,
   minha pele, vinho amazônico,
       superfície transtornada & encruzilhada
do coração monástico
    que pulsa, no cais da ilha
soterrado...

 

Canto tercero
# Más allá de la puerta del infierno

 

O sal. A sede. Olhar sereno.
Meu corpo, vulcão de sete-línguas
               raios & doces rios vocifera
alimentando cinzas, sementes & fosforescências 
                                                                 outras
a sarça arde. Todos os sons,
            todas as sílabas, todos os sonhos
se fazem música.
Tempero o café. A tequila. A despedida.
   com o doce veneno do alacrán
que de Durango à ilha 
             o céu domina
& aquieta a fera
      ressuscita o arcanjo
          dedilha a harpa
             tecla o piano
e amanhece esses versos
de gratidão, alegria
& desenfreada paixão
aos inefáveis signos do zodíaco:
                    mistério, segredo, alucinação
, espaço breve & intermitente,
       amizades que respiram no éter
       raízes que brotam no silêncio efêmero que no vácuo se anuncia 
entre os abismos repletos de nada
       dança uma pequena borboleta
imperatriz do milagre supremo
  haicai barroco que transubstancia
      o cálcio das ruínas & pesadelos
         em inigualável banquete:
cortejo de delícias & promessas anunciadas...

 

*Poema enviado pelo autor, cuja produção pode ser conferida em https://insensatanau.blogspot.com/

 

Nuno Gonçalves, poeta brasileiro

 


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