Ronaldo de Castro

A Água

A água corre
a distância cilíndrica
e num jato frio morre
na boca nívea da pia

A esponja mineral
do canteiro chupa a água
O esgoto é sepultura
das águas desta cidade
que lavam ruas e sexos
e a sede matam também

Pluvial ou água clorada
a água líquida informe
são as formas diluídas
de sorrisos naufragados

Quando o gelo é água dura
engarrafada é pileque
no rio é casa de peixe
no céu é nuvem equestre
no mar pode ser salitre

Água água sempre água
deslizante fugidia
água benta batizando
água suja intoxicando
água quente e água fria

Já que a seca é falta d´água
matando plantas e bichos
a humanidade é pau-d´água

Água água sempre água


Ronaldo de Castro, poeta mato-grossense (1941-2001)

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