Lêdo Ivo

Canto Grande


Não tenho mais canções de amor.
Joguei tudo pela janela.
Em companhia da linguagem
fiquei, e o mundo se elucida.

Do mar guardei a melhor ondaque é menos móvel que o amor.
E da vida, guardei a dor
de todos os que estão sofrendo.

Sou um homem que perdeu tudo
mas criou a realidade,
fogueira de imagens, depósito
de coisas que jamais explodem.

De tudo quero o essencial:
o aqueduto de uma cidade,
rodovia do litoral,
o refluxo de uma palavra.

Longe dos céus, mesmo dos próximos,
e perto dos confins da terra,
aqui estou. Minha canção
enfrenta o inverno, é de concreto.

Meu coração está batendo
sua canção de amor maior.
Bate por toda a humanidade,
em verdade não estou só.

Posso agora comunicar-me
e sei que o mundo é muito grande.
Pela mão, levam-me as palavras
a geografias absolutas.


Lêdo Ivo, poeta brasileiro (1924-2012)

Voltar  

Confira também nesta seção:
20.10.20 19h00 » Catarina Lins
13.10.20 19h00 » Akiko Yosano
06.10.20 19h00 » Graça Pires
29.09.20 19h00 » Warsan Shire
22.09.20 21h00 » Wladimir Cazé
15.09.20 21h00 » Ernesto Manuel de Melo e Castro
08.09.20 20h00 » Martin Jankowski
01.09.20 22h50 » Conceição Evaristo
26.08.20 00h01 » Sousândrade
19.08.20 00h01 » Eduard Traste
12.08.20 00h01 » Carlos Orfeu
05.08.20 00h10 » Emílio Moura
29.07.20 00h01 » Josefina Pla
22.07.20 00h06 » Andréa Catrópa
15.07.20 00h10 » Niels Hav
08.07.20 00h10 » Ian Curtis
01.07.20 00h01 » Max Martins
24.06.20 00h10 » Rachel Ventura Rabello
17.06.20 00h10 » Ruth Maier
10.06.20 00h10 » Amparo Osório

Agenda Cultural

Veja Mais

Newsletter

Preencha o formulário abaixo para receber nossa newsletter:

  • Nome:

  • Email:

  • assinar

  • cancelar


Copyright © 2012 Tyrannus Melancholicus - Todos os direitos reservadosTrinix Internet