POESIA

Homero Aridjis

Os anjos fitam-nos*

No quarto,
eis-nos fitados pelos anjos
ou melhor, perscrutam-nos,
como se houvesse gato escondido
nos nossos olhos.
E beijam-nos, os anjos,
com lábios
tomados por um invencível
impostergável amor.
E medem-nos o corpo,
os anjos, tal como quem
toma as medidas
da mortalha necessária.
Os anjos observam-nos
como se fôssemos já seus
com os dentes amarelos
da sua cara famélica.
Lá fora,
um ciclista parecido comigo
atravessa a noite.


*Reproduzido de https://revistacaliban.net , com tradução de Antonio Cabrita

Homero Aridjis, poeta do México


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