PROSA

O homem do país que não existe (trecho)*



Esta é a história real de Santiago Ayza, o homem do país que não existe. Pelo que se tem notícia, Santiago tinha cinquenta e dois anos quando andava na rua em direção ao trabalho. No relógio de pulso, ele viu os ponteiros marcarem sete e trinta e decidiu aparar o cabelo numa pequena barbearia, onde se lia na tabuleta que Manuel Herrera era o proprietário. Talvez houvesse tempo para fazer a barba, dependendo da perícia do homenzinho baixo que foi atendê-lo. Ao subir o batente de três degraus, abriu a porta e ouviu um guizo a dar conta do primeiro cliente do dia. Bom dia — cumprimentou Santiago. Bons dias, patrão — respondeu Herrera, que estava a postos de jaleco branco. Será só o cabelo ou vai fazer barba também? Dá tempo? Ah sim, claro; primeiro faço a barba e, depois, cuido do cabelo. Preciso chegar à repartição antes das oito. Chegará, patrão, eu garanto. O homem alto sentou-se na cadeira giratória de couro cru de onde sobrava um palmo de braço e metade das pernas daquele homem grande. Na média, Santiago Ayza era um terço maior do que todas as outras pessoas com as quais iria conviver daquele instante em diante. Herrera jogou sobre o cliente uma capa que se fechava em dois botões laterais, inclinou o assento, colocou uma toalha quente sobre o rosto do primeiro estrangeiro que atendia na vida e esperou cinco minutos. Muito quente, patrão? — quis saber. Não, está bom. Santiago sentiu um cheiro leve de hortelã no pano úmido que, aos poucos, ficava morno.

Mirela González terminava o plantão às nove horas da manhã. O Hospital Central pagava uma mixaria às enfermeiras inexperientes. A única alternativa para a moça ganhar mais era trabalhar no isolamento. Mirela odiava o que se chamava corredor da morte. Ao atravessar a pesada porta, sentia-se na antessala que fazia divisa com outro mundo. Vinte e dois pacientes deitavam-se lado a lado, em camas organizadas ao longo da comprida sala retangular. O som dos respiradores e das máquinas que controlavam os batimentos cardíacos compunha uma sinfonia triste, onde comumente um dos músicos deixava a orquestra no dia seguinte para ser substituído por outro pobre-diabo. Naquele purgatório, o que mais angustiava Mirela era o fato de nunca apagarem as luzes. Na ausência de noite, os pacientes atormentados pela insônia já não sabiam precisar as horas, nem quantos dias estavam vegetando. Era encarregada de tudo o que as demais enfermeiras rejeitavam: acompanhar os pacientes da emergência ao isolamento, cadastrá-los e fazer a higiene pessoal dos desenganados. Foi assim que Mirela conheceu o homem surpreendentemente alto que chegara pálido na maca da ambulância. O novo paciente recebeu duas cargas elétricas no peito, que acabou sendo aberto pelo doutor Humberto Garrido. Naquela manhã, ela foi obrigada a ficar mais meia hora preenchendo os formulários do infartado: Santiago Ayza, residente à rua da Consolação, noventa e oito, cidade de Passos, República Hermosa.



*Trecho inicial de "O homem do país que não existe" (Carlini & Caniato), romance que tem lançamento em poucos dias 

mahon

Eduardo Mahon é advogado, poeta e escritor. Já ministrou aulas em várias instituições do ensino superior de Mato Grosso e atua proficuamente como advogado. A parte isso, desenvolve uma trajetória também bastante agitada como autor e ativista da literatura mato-grossense. Dentre suas principais obras, "Alegorias do Arquiteto"; "Dr. Funério e Outros Contos de Morte" e "O Cambista". "O homem do país que não existe", que tem lançamento no próximo sábado (4) e de onde foram reproduzidos os dois parágrafos acima, é o seu sétimo romance

 


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