PROSA

Cruzeiro*



No dia que comprei minha edição de Big Sur, de Jack Kerouac, numa livraria em Paulo Afonso não fui diretamente para minha casa por causa da estranheza que me consumiu. Quando a viagem excruciante finalmente terminou e descemos no entroncamento entre as cidades conhecidas e caminhamos dentro de um silêncio angustiante. Não comentamos absolutamente nada daquilo durante a caminhada. Jamais comentamos aquilo na verdade. Porém para mim a história se infiltrou nos escritos no livro Big Sur para sempre. Ainda ontem perguntei para Drica se ela lembrava dessa história e ela respondeu que não. Morávamos em Vila Branca e o amigo Simeão me soprou a dica deste clássico do Kerouac. O deixara escondido entre outros livros para não ser encontrado. Quase uma reserva secreta. Eu e a Drica, minha amada, nos jogamos na estrada e tentamos carona. Da ida não guardo lembranças que foram substituídas pela ansiedade e nervosismo de encontrar o livro. Fui direto na prateleira, guiado pelo mapa do tesouro construído com as minúcias. Suando entre as seções da xamanismo e culinária; terceira prateleira de baixo para cima, o último do canto esquerdo, por trás do livro Cozinhe com Monges. O atendente fez um desconto mixuruca. Havia um livro do Gaiman que acho, com quase certeza completa, que foi imaginado por mim. Jamais o encontrei novamente.

Uma pena. A grana estava contada e só poderia levar o Kerouac. Paguei, demos meia volta e retornamos para o ponto das vans. Novamente buscamos carona e a partir daí aconteceram os espantos. Uma D20 verde parou e ouvimos ao longe.  - Querem carona? O motorista era da cidade vizinha, Terra Forte, e já estava de partida (tá, não era isso o incrível, alguém oferecer carona, mas sim o fatos que que aconteceriam depois). Ele era adulto jovem, pequena estatura, cabelos fartos e negros, percebi que na carroceria carregava um equipamento de som, estilo Paredão. Drica bocejava. Mesmo sendo prolixo e banal não haviam palavras ditas que superassem o clima frio daquela época e a condução. A serração preenchia o horizonte na região friorenta do sertão. Na turbidez da estrada um povoado que me custa muito da memória por não lembrar o nome provocou espanto no motorista. Desolado apontou pra uma grupo de pequenas cruzes ao pé da estrada, um conjunto irregular de madeiras ora cruas ora pintadas, sustentadas por um amontoado de pedras e desabafou:

- Esse cruzeiro é de conhecidos meus! E foi por minha causa! Fitou a construção rústica e emblemática no momento que passávamos. Três cruzes, sinalizadas, adornadas de forma personalizada. Numa, flores azuis e brancas com um rosário amarelão e pingente de nossa senhora pendurado. Outra, com duas pequenas imagens de santos católicos. E as demais apenas arrodeadas por resto de velas e pedras (ao costume judeu que preza que toda pessoa que passar por esse cruzeiro, capela ou cova deve colocar um pedra como sinal de respeito). Como se ele conseguisse olhá-lo mesmo de dentro da cabine. E antes que eu perguntasse sobre os motivo da tal "homenagem", escancarou:

-Eu vinha numa carreira da fera, carregado e tinha tomado umas.  Exatamente igual a hoje, quando do nada sairam de trás das juremas, três pessoas correndo nuas, (na verdade eram apenas roupas curtas) para beirada da pista e não tive tempo de desviar. Foi em cheio nos três a pancada. Não deu. Não consegui parar.  Os pedaços deles caíram dentro da cabine como uma chuva.

- Que doidera da porra! Falei e a Drica: - Que horror!

- Eles estavam muito doidos de drogas e nesse dia, segundo relatos, brigavam por ciúmes. Viviam em acordo conjugal todos os três. Mas uma das meninas era mais agressiva quando bebia. Outras testemunham relataram que naquele dia desde de muito cedo que se estranhavam. O amor não gosta de competições. Só de dedicação. Soltei essa besteira tentado tanto amenizar a culpa do motorista. Eis a fatalidade para a ciência da auto ajuda. Conselho idiota do tipo de quem não sabe o que falar. Então ele replicou:

- Rapaz, mas querem se matar, se matem, mas não lasquem a vida dos outros que. Ele realmente não deu importância a besteira que falei. Deixou-me mais aliviado. Drica se preocupou:

- Você se machucou? Teve alguma coisa?

- Não moça, não tive nenhum dano físico. O difícil foi ter que sinalizar a pista e cuidar dos corpos até a chegada da polícia e dos bombeiros. E mais duro ainda foi ver os curiosos procurando os pedaços espalhados pelo vegetação. Não tínhamos palavras, acho que ninguém teria, quer dizer, só ele:

- Percebi um homem acenando com uma lanterna e logo depois gritando: "Achei aqui ó!" E levantou, como quem levantava um troféu, a metade da perna do homem atropelado. Explodimos em uníssono: Vixe Maria! Talvez recordasse da viagem e até da neblina ou mas não do motorista da D20 e seu cruzeiro de homenagens. Essa parte da história você deve ter imaginado assim da mesma forma que o livro de Gaimam. Ela falou.

 

*Conto inédito enviado pelo autor. Interessados em adquirir os livros do autor podem entrar em contato com o próprio pelo whatsApp 82 98114 4181

henrique silva

mayk

Nascido em Delmiro Gouveia nas Alagoas o poeta e escritor Mayk Oliveira é membro do movimento artístico Arborosa, situado no alto sertão, músico e professor de História e Letras com especialidade em ambas as ciências. Escreveu três livros de poemas: "Livro dos Delírios" (Parresia,2020), "Pétrino Astéri" (Parresia, 2021) e "Alcatrão Com Grilos" (Parresia, 2022), um romance (a publicar) e um livro de contos "Molhados Enxutos" (Parresia, 2021). Sua produção escrita vem desde 2000. É ambientalista de espírito, cultiva sua roça orgânica, com plantas e flores nativas, enquanto salva as pessoas dos riscos sanitários do mundo moderno

 


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