ROMANCE (TRECHO)

A dança do jaguar*



NÃO TINHA SIDO UM SONHO. Desta vez aconteceu, em plena manhã, dez horas, domingo. Estava lendo no meu quarto quando ela passou suavemente, envolta em véus, os olhos cheios de lágrimas, desaparecendo entre as cortinas da janela. Foi tudo tão rápido que eu quase duvidei de mim mesma. As cortinas são muito leves, a janela aberta fazia-as balançar, levantando-as quase até o meio do quarto. Teria sido uma ilusão de ótica? Comecei a andar de um lado para outro, agitada, quando avistei no cinzeiro, em cima da cômoda, a evidência. Clara e límpida de sua passagem. As lágrimas.

Mas afinal quem era ela? O que pretendia? Por que insistia em se mostrar a mim? Ameaçava ou implorava proteção ao invadir o Solar Maltesa? Ou ela fazia parte da história daquela casa e via em mim uma intrusa? Ou será que, ao morar no solar, assimilava heranças de um passado que eu desconhecia? Se de sangue, sque, traição, generosidade, grandeza, espoliação? Dizem que há um inter-relacionamento entre pessoas e objetos, alimentando-se mutuamente das seivas que cada um produz. E que vínculos se formam, com ou sem o nosso consentimento. Será? Então ao viver sob o teto da vitoriana, algo se construía em mim ou à minha volta, sem que eu me desse conta? Algo se enraizava feito trepadeiras, parasitas, cipós oportunistas? E se assim fosse, a que mais eu ainda estaria exposta naquele nevoeiro de sombras e sobressaltos?

As lágrimas continuavam claras no cinzeiro.

Refletindo a luz difusa do abajur de porcelana.

 

*Trecho do romance "A dança do jaguar", que ganhou sua primeira edição física e será lançado brevemente em Cuiabá, pela Entrelinhas Editora

tereza

Tereza Albues (1936 - 2005) nasceu em Várzea Grande (MT). Graduou-se em direito, letras e jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foi uma escritora brasileira respeitada internacionalmente, viveu por 25 anos nos Estados Unidos, onde produziu toda sua obra. Seus primeiros romances foram ambientados nas planícies pantaneiras. Em 2013, foi escolhida como Patrona Perpétua das Letras Brasileiras em Nova York, pela Brazilian Endowment for the Arts, BEA. Lançou os romances "Chapada da palma roxa" (1991), "A travessia dos sempre vivos" (1993), "Pedra Canga" (2001), "O berro do cordeiro em Nova York" (1995) e "A dança do jaguar" (2000), além do livro de contos "Buquê de línguas" (2005).

 


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