PROSA

Noturno do Chile (excerto)



"Nós nos entediávamos. Líamos e nos entediávamos. Nós, intelectuais. Porque não se pode ler o dia inteiro e a noite inteira. Não éramos, não somos titãs cegos, e naqueles anos, como agora, o escritores e artistas chilenos precisavam se unir e conversar, se possível num lugar simpático e com pessoas inteligentes. O problema, à parte o fato incontornável de que muitos amigos tinham ido embora do país por problemas muitas vezes muito mais de índoles  pessoal que política, estava no toque de recolher. Onde os intelectuais, os artistas, podiam se reunir, se às dez da noite tudo fechava e a noite, como todo mundo sabe, é o momento propício para a reunião, para as confidências e para o diálogo entre iguais? Os artistas, os escritores. Que época. Parece que vejo o rosto do jovem envelhecido. Não o vejo, mas parece que o vejo. Franze o nariz, escruta o horizonte, estremece da cabeça aos pés. Não o vejo, mas parece que o vejo acocorado ou de quatro numa elevação, enquanto as nuvens negras passam velocíssimas por cima de sua cabeça, a elevação então é uma pequena colina e no minuto seguinte é o átrio de uma igreja, um átrio negro como as nuvens, carregado de eletricidade como as nuvens e brilhante de umidade, e o jovem envelhecido estremece, torna a estremecer, franze o nariz, depois salta sobre a história."

 

*Pequeno trecho de "Noturno do Chile" (Companhia das Letras - 2004), ficção chilena da melhor qualidade, de Roberto Bolaño, com tradução de Eduardo Brandão. Obra que integra o acervo do tyrannus

estêncil

bolaño

Roberto Bolaño (1953 - 2003) nasceu em Santiago do Chile. Adolescente viajou para o México com a família e de lá retornou ao Chile em 1973, com ideias revolucionárias. Foi preso. Solto, exilou-se em El Salvador e no México, para depois instalar-se na Espanha. Foi escritor, poeta e ensaísta. É considerado o ´principal autor chileno da sua geração e ganhou condecorações literárias de destaque como o Prémio Herralde (1998), Prémio Rómulo Gallegos (1999) e National Book Critics Circle Award (2008). Sua obra mais aclamada é "2666", romance póstumo


Voltar  

Confira também nesta seção:
27.06.22 20h27 » O retrato de Dorian Gray
27.06.22 20h23 » Doce recusa do olhar*
20.06.22 15h57 » O torresmo no contexto literário
20.06.22 15h57 » Procura-se um leitor
18.06.22 16h16 » O susto do meu pai*
18.06.22 09h58 » Chega de Saudade
13.06.22 18h08 » Noturno do Chile (excerto)
13.06.22 18h08 » Amor imorredouro*
06.06.22 14h00 » A dança do jaguar*
06.06.22 14h00 » Cruzeiro*
03.06.22 19h54 » Fazer o que desejamos*
02.06.22 20h00 » "A marola e a borboleta"
30.05.22 14h15 » O homem do país que não existe (trecho)*
30.05.22 14h15 » Bondade com peixinhos*
23.05.22 17h29 » O ex-mágico da Taberna Minhota*
23.05.22 17h28 » Grande dramaturgo clássico da França*
16.05.22 16h34 » Estigmas e sintagmas
16.05.22 15h25 » A mariposa*
09.05.22 17h26 » O Filósofo Platão*
09.05.22 17h26 » O Palhaço*

Agenda Cultural

Veja Mais

Newsletter

Preencha o formulário abaixo para receber nossa newsletter:

  • Nome:

  • Email:


  • assinar

  • cancelar


Copyright © 2012 Tyrannus Melancholicus - Todos os direitos reservadosTrinix Internet