LETRAS DELAS

Procura-se um leitor



Quando a pessoa finge que é o que não é, ela está
represando instintos, sabia? Li isso num livro de
psicologia; gostava de estudar na época em que era
advogado, falava essas coisas quando fazia júri,
pegava bem. (p. 85).

Maria Fernanda Elias Maglio

 

Não conheço pessoalmente Maria Fernanda Elias Maglio, mas parece que sim. Sua literatura transparece um jeito de ser e encarar o mundo para além de sua condição, profissão, sexualidade. Quando li seu “Enfim, Imperatriz”, fui abduzido pela linguagem dura de quem sabe o que diz e que fere, tanto quanto o leitor experiente, quanto o aprendiz. O livro ganhou o Jabuti de contos, em 2018, mais um da Editora Patuá.

Em 2020 ela volta aos prêmios, desta vez com poesia. “179.Resistência” orbita o mesmo conjunto de imagens, cenário em que viv’almas buscam encaixe nesta imperfeição cotidiana que nos permite viver a vida. Venceu o prêmio Biblioteca Nacional, na categoria poesia.

Embora o livro tenha sido publicado em 2021, estamos (ainda) em 2022. Os anos pares me parecem ter sido bons para a trajetória de Maria Fernanda. “Quem tá vivo levanta a mão” traça um caminho similar e a temática continua a mesma. Ocorre que a escritora, que atua como defensora pública no estado de São Paulo percorre o itinerário de sua formação, embora faça uso do linguajar, das categorias profissionais em outro sentido. É outro livro de contos, ainda que eu goste de ler como fosse romance. Vinte e três narrativas curtas que enlaçam o leitor do início ao fim.

Gosto de pensar o 02/10/92 como eixo. É o dia do massacre do Carandiru, fato histórico que dispensa comentários, sobretudo no cenário miliciano em que estamos imersos. Os rituais de tortura, o sadismo que está por trás das relações de poder (não só) no sistema prisional são uma espécie de rastilho de pólvora das narrativas de Maria Fernanda. “... você pune o cara não só pelo que ele fez, mas também pelo que não fez. É o método mais eficiente de manter a ordem: matar o desgraçado antes de ele causar a desgraça”. (p. 42). O prefácio de Rogério Duarte, espécie de garrafa lançada ao mar em busca de um leitor, dá o tom do que vem pela frente:

Quem tá vivo levanta a mão é uma convocação, porque este
tempo é todo de urgências, inscritas na tessitura dos contos: que
estes abismos todos, que a vertigem de tanta realidade crua, mas
sobretudo que a pequena candura de um bater de asas, nos
possam despertar do sono entorpecedor, que é ele próprio a
morte que nos declararam – basta erguer a mão. (p. 15).

Se você é como eu, gosta de ler a literatura brasileira escrita por mulheres, sinta-se apresentado a mais uma delas. Tenho a impressão de que este livro pode abocanhar um ou outro prêmio por aí. Só acho! Encerrei minha crônica sobre “Enfim, Imperatriz”, de 2017, chamando a atenção para as

oito páginas pretas, com letras brancas, feito epitáfio na forma de conto.
Antecedido por outros quatro contos, este, que dá nome ao livro, tem um
papel estrutural de apresentar as faces da morte no sistema prisional. A
cadeia produtiva do livro, as grades do gênero ficcional, as amarras do texto
narrativo, aqui se desintegram. Não há livro, não há gênero, não há vida fora
da vida; e isso inclui a morte, rito de passagem. [...] Este dossiê literário me
apresentou alguns personagens de uma realidade presente. “Teresa pensou
que não seria capaz de amar a filha. Que os anos de sofrimento tinham
aleijado seu coração. Mas o cheiro de sabonete da cabeça da filha fez Teresa
lembrar da mãe, que morreu quando ela tinha três anos, de uma veia que
explodiu no cérebro” (idem, p. 98). Eu nunca havia ouvido falar sobre
aneurisma cerebral. Até o dia 22 de dezembro de 1985.


REFERÊNCIA

MAGLIO, Maria Fernanda Elias. Quem tá vivo levanta a mão. São Paulo: Patuá, 2021.

*Luiz Renato Souza Pinto, poeta, escritor, ator e professor. Colabora mensalmente com o tyrannus, através da coluna LETRAS DELAS, onde envereda por literaturas escritas por mulheres

acervo pessoal

MARIA FERNANDA

Maria Fernanda Elias Maglio é nome forte na literatura brasileira contemporânea. Atua, desde 2007, como defensora pública no Estado de São Paulo. Nasceu na cidade de Cajuru, próxima de Ribeirão Preto. Escreve desde 2013 e já mostrou-se bastante apta para o ofício das letras, colecionando prêmios importantes. Seu primeiro livro, "Enfim Imperatriz" (2017 - contos - Patuá) foi finalista do Prêmio Sesc de Literatura e também faturou o Jabuti, em 2018. Em 2020, com "179. Resistência" (poesia - Patuá), venceu o Prêmio Alphonsus de Guimaraens de Poesia da Biblioteca Nacional e lançou, no formato digital, o romance "Você me espera para morrer?" (Patuá)

 


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