CRÔNICA

O susto do meu pai*



Em 1970, comprei uma casa inacabada no bairro do Porto, na rua Major Gama, número 838.

Quando comuniquei ao meu pai o endereço da minha nova residência, ele estava em casa sentado na cadeira de balanço e levou um susto!

Então, agora você vai morar no Morro do Tambor? – Perguntou.

Eu não sabia que aquela rua pertencia ao Morro do Tambor, e lhe respondi que ficava no Porto.

Ele retrucou dizendo que o Porto era um bairro do segundo distrito de Cuiabá.

Tinha o seu início na rua 13 de Junho, atravessava a avenida Dom Bosco, chegando ao Porto pela rua 15 de Novembro.

Porque você escolheu um lugar tão longe para morar, ainda mais na entrada do Morro do Tambor? – Indagou-me.

Foi o que tinha de dinheiro para comprar - respondi.

Meu pai nasceu, foi educado, casou, trabalhou e morreu no Centro Histórico de Cuiabá.

Seu mundo se resumia nesse espaço maravilhoso, onde encontrava de tudo para viver e bem.

Durante algum tempo ele ia até a Agência Migueis, no Porto para se informar sobre a data da chegada das mercadorias para o bar.

A 1ª empresa telefônica de Cuiabá foi inaugurada onze anos antes da inauguração do bar do Bugre, e contava com uma lista de vinte e dois assinantes, e o bar não possuía o aparelho, obrigando o meu pai ir frequentemente ao Porto.         

Em 1980 convidei o meu pai para conhecer as obras adiantadas da cidade universitária de Cuiabá, no Coxipó da Ponte.

Sem sair do carro, percorri a avenida central, fiz o contorno pela praça do restaurante estudantil e retornei lentamente para que pudesse apreciar o imenso canteiro de obras com muitas já concluídas.

Ao retornar para sua casa na rua do Campo, me perguntou sobre o fascínio que tinha com os bairros do segundo distrito de Cuiabá.

Relembrou-me que quando retornei médico, fui trabalhar na Chácara dos Loucos, depois na Secretaria de Educação, cujo prédio foi cedido ao 9º BEC, e agora na Universidade, tudo no Coxipó da Ponte.

Foram as oportunidades que tive, todas fora da minha especialização que era de médico parteiro.

Da universidade você foi um verdadeiro parteiro, das outras um excelente cirurgião – disse-me.

Meu pai tinha um aguçado senso de humor feito com poucas palavras.

Durante a sua vida ouviu milhares de histórias e estórias, contadas pelos seus fregueses das mais variadas camadas da sociedade.

Os “chatos” ouvia com desdém, e quase sempre se retirava quando estava na porta do bar.

Mesmo convidado, nunca o vi sentado em mesa de freguês, por mais ilustre que fosse.

Era muito procurado por vendedores de terrenos, os quais logo “despachava”.

Teve oportunidade de ser rico, mas, preferiu educar seus nove filhos.

 

*Crônica reproduzida do blog http://bar-do-bugre.blogspot.com/ , de autoria de Gabriel Novis Neves, parceiro e camarada do tyrannus

pai bié miolo

Olyntho Neves, que "tocou" o Bar do Bugre durante meio século, em fotografia do acervo de Gabriel Novis Neves


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