CRÔNICA

Troco no Bar Moderno*



caixa miolo

"Se um dia não tiver troco o pedinte irá dizer que nunca tenho troco e nunca o atendi por má vontade"

Meu pai tinha instrução primária, mas era bem-educado.

Nascido Olyntho Neves era conhecido como Bugre.

Depois, como Bugre do Bar, e o Bar Moderno, seu bar, só existiu na Junta Comercial.

Seus quatro filhos homens concluíram o ensino superior e das suas cinco filhas, duas têm formação universitária e três pararam no ensino médio.

Todos os seus filhos casaram-se jovens, não seguindo seu exemplo, que casou aos quarenta anos com uma moça de vinte.

Foi um grande educador e filósofo e eu, como filho primogênito, fui o mais beneficiado com as suas sábias lições para a vida.

Certa ocasião, estava ao seu lado, ele sentado no banco de madeira elevado em frente à máquina registradora do bar.

Chegou uma personalidade da cidade e pediu que trocasse uma nota de valor máximo na época.

Meu pai, sem abrir as gavetas da máquina registradora, disse que não possuía troco.

O cliente deixou o bar resmungando por não ter sido atendido.

Falei ao meu pai: o senhor poderia ter atendido o pedido do seu cliente. As caixas da máquina estão cheias de notas para troco.

Com muita calma, adquirida pelos anos de vida, me respondeu: posso fazer essa gentileza mil vezes para um cliente e ele ficar de bem comigo.

Se um dia não tiver troco o pedinte irá dizer que nunca tenho troco e nunca o atendi por má vontade.

Dias depois os clientes que tiveram seus pedidos de troco no bar negados estavam de volta realizando suas compras de sempre.

Guardei mais essa lição para o resto da minha vida.

A injustiça faz parte dos seres humanos.

Cometem esse ato até sem notar que estão violando o direito de outras pessoas.

O comerciante da Cuiabá antiga não podia ficar sem troco para fazer seus negócios de compra e venda.

Quantas vezes fui ao Banco do Brasil, do outro lado da Praça Alencastro, trazer trocos para o bar!

A sorveteria do bar não funcionava sem trocos.

Meu pai tinha razão, embora seu filho de dez anos não percebesse dessas verdades e, que uma vez aprendida nunca foi esquecida por ele.

Essa conduta também era aplicada para aqueles que o procuravam para fazer empréstimos ou adiantamento de salários, cobrando juros.

Nestes casos ele os encaminhava aos agiotas da cidade.

Troco no bar sempre foi um negócio importante.

 

*Crônica e fotografia reproduzidas do endereço http://bar-do-bugre.blogspot.com/ , de autoria de Gabriel Novis Neves, parceiro e camarada do tyrannus há vários anos, Outros textos do autor podem ser conferidos também no link http://gnn-cultura.blogspot.com

 


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