PROSA

Uma pedra caiu no lago*



Há um tom de verde, que encontramos às vezes nos céus de certos quadros - um verde aguado, duma pureza de cristal, transparente e frio como um lago nórdico - um verde tão remoto, sereno e perfeito, que parece nada ter de comum com as coisas terrenas. Paramos, contemplamos a tela, atribuímos a cor impossível à fantasia do artista e passamos adiante.

Entretanto havia na realidade um verde exatamente assim no horizonte daquele anoitecer de Sexta-Feira da Paixão. O dia fora morno e sem vento. O outono andava a dar novas tintas à cidade. As folhas das trepadeiras que cobriam as paredes de algumas vivendas dos Moinhos de Vento, faziam-se dum vermelho de ferrugem. Os plátanos do Parque começavam a perder as primeiras folhas. A luz do sol tinha a cor e a doçura do mel. Os horizontes fugiam. Por toda a oarte as paineiras estavam rebentando em flores. Os contornos das coisas amaciavam-se à claridade de abril. Andava no ar uma calma adormentadora. A paisagem como que ia adquirindo aos poucos uma certa maturidade, e as criaturas humanas pareciam finalmente em paz com o céu e a terra. Havia entre elas e a natureza um acordo espontêneo, uma repousada hamonia, uma aceitação mútua e sem reservas. 

Durante o dia houvera uma peregrinação animada e contínua às igrejas. Ao cair da tarde os tons de roxo que assombtavam o interior dos templos, alastraram-se pela paisagem, alcançaram as montanhas do outro lado do Guaíba, tingiram águas, sombras, distâncias, e ficaram suspensos sobre os telhados numa poeira lilás. Um observador atento verificaria que até os rostos e as mãos das pessoas andavam tocados de fugazes reflexos violáceos.

Logo depois que o sol desapareceu, aquela praça ali no centro da cidade teve um minuto de esquisita beleza. As lâmpadas estavam ainda apagadas. Os anúncios de gás neônio riscavam de coriscos coloridos as capotas dos automóveis parados junto da calçada. Quem olhasse para o lado do poente veria - silhuetas de casas, torreões, cúpulas, postes, cabos e armações de aço - uma escura massa arroxeada contra o gelo verde do horizonte. Sons de buzinas distantes e de raras vozes humanas subiam amortecidas na atmosfera de paina. Tinha-se a impressão de que os passantes esqueciam seus cuidados e propósitos, compreendiam que naquele instante eram apenas elementos dum quadro. Moviam-se sem pressa, numa calma silenciosa: andavam de leve, como que flutuando no ar.

Mas a cena durou apenas um rápido minuto. Acenderam-se os combustores, e de repente algo de inesperado aconteceu. Uma rapariga precipitou-se do décimo-terceiro andar do edifício Império, deu uma vira-volta no ar e caiu hirta e de pé contra as pedras do calçamento , produzindo um ruído seco e agudo, que ecoou no largo como um tiro de pistola. Seguiram-se alguns segundos de estarrecimento, comose aquele trecho de rua  e aquele momento fossem pessoas às quais o choque da surpresativesse cortado subitamente a respiração. Homens correram para "a coisa que havia caído". O grupo em torno da criatura foi aos poucos aumentando, mas ninguém se atrevia a tocar-lhe o corpo. Houve uma confusão de vozes, gestos e indecisões. Passados alguns minutos, chegou o carro da Assistência, e quando o médico se inclinou sobre a desconhecida, verificou que ela já estava morta.

O cadáver foi levado para o necrotério. O grupo de curiosos dispersou-se aos poucos. A notícias espalhou-se depressa e todas as direções. Quem era a moça? - perguntavam uns aos outros. Ninguém sabia ao certo.

A polícia verificou mais tarde que se tratava de Joana Karewska, de dezoito anos, filha de imigrantes poloneses e empregada duma loja de "nada além". 

A noite em breve cobriu com uma larga pincelada azul as últimas côres de sol que havia no céu e na cidade. As fachadas dos cinemas iluminaram-se, e a vida naquela praça continuou, como se nada tivesse acontecido.



*Capítulo inicial do romance "O resto é silêncio" (Livraria do Globo S. A. - 1956), de Érico Veríssimo. Obra que faz parte da biblioteca tyrannus



arquivo nacional

veríssimo

O gaúcho Érico Lopes Veríssimo (1905 - 1975) nasceu no município de Cruz Alta. Foi um escritor brasileiro da segunda fase modernista, chamada de fase de consolidação. Trabalhou também como farmacêutico e professor de literatura e língua inglesa. Ganhou prêmio literários de destaque, entre eles, o Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, e o Jabuti. Os romances ""Incidente em Antares", "Música ao longe" e a trilogia "O tempo e o vento" estão entre suas obras mais importantes

 


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