CRÔNICA

E o poeta se mandou...



Prólogo

A culpa é de Cuiabá e seu aniversário. Por causa disso reproduzo hoje, logo abaixo, texto que escrevi em 2014, em novembro, quando Manoel de Barros se mandou deste mundo. Muita gente não sabe, mas ele nasceu em Cuiabá, só que logo nos primeiros meses de vida mudou-se para Mato Grosso do Sul. Conversei algumas vezes com ele e, pelo menos para mim, fazia questão de dizer que era cuiabano. 

Seu humor era abundante. O humor, aliás, já ouvi dizer, é característica de pessoas inteligentes. Sobre essa faceta bem humorada do poeta, após o final da crônica, naquilo que vou chamar de epílogo, acrescento outras passagens engraçadas do meu rápido convívio com ele.

Em 2005, nos preparativos da Literamérica, provavelmente o maior evento culturala já realizado em MT, fui incumbido de convidá-lo para vir, já que ele seria um dos homenageados. Na conversa por telefone, procurei dar um tom formal, pois representava a organização de um baita evento, mas ele me desarmou logo no começo do diálogo: "O que vocês querem comigo... eu estou em ruínas."

A crônica original

Então, aconteceu que neste treze de novembro, o poeta Manoel de Barros partiu e vai fazer seus versos em outras dimensões. Aqui em Cuiabá, cidade onde ele nasceu, apesar de ter vivido uma vida inteira em Mato Grosso do Sul, despencou um aguaceiro brabo neste dia. Não sei bem se foi coisa de São Pedro, e vai ver que também por causa do Pantanal, planície inundável, de larga e rica experiência aquífera.

É dureza essa reta final na vida das pessoas. Esse papo de não morrer, mas estar meio mais pra lá do que pra cá. E a mala pronta - prontinha da silva - pra essa derradeira viagem que não perdoa ninguém.

Fico sem saber direito o que escrever/dizer sobre Nequinho. Talvez repetir as histórias sobre a pouca convivência que tive com ele, as conversas e os ensinamentos que ele compartilhou comigo. Essas coisas que se cravam em nossa memória e não tem alzheimer que apague.

Relembrar a proximidade que experimentei com o manobrista das palavras... Um porre na Literamérica de 2005, quando ele foi um dos homenageados e recebeu três mil reais de cachê. Eu estava incumbido de cuidar dele, do Ricardo Dicke e do Wlademir Dias Pino (também homenageados). “Lorenzo, quero gastar todo esse cachê em cerveja... vamos beber”, disse-me. E eu: “É muito dinheiro, poeta... teremos que ir pra zona (puteiro, num palavreado mais antigo), pra conseguir torrar tudo”. E ríamos enquanto bebíamos.

As conversações dele com o Dicke e o Wlademir, que presenciei. Quando desceu do ônibus que o trouxe do aeroporto ao hotel, eu conversava com Wlademir e fui recebê-lo. Disse Nequinho: “Esse outro homenageado, o Wlademir... ele já morreu, né?”. “Não poeta, olha ele aqui...”. Wlademir, mais novo que Nequinho, tentou puxar pela memória do poeta: “Uma vez te dei um livro meu e conversamos...”. “E quando foi isso?” (Manoel). “Acho que nos anos 40...” (Wlademir). “Ah, eu não me lembro” (Nequinho).

Tenho repetido essas e outras sobre meu convívio com esse poeta nobre. Hoje, especialmente, pela passagem de Nequinho, vou reproduzir aqui uma parte do primeiro contato que tive com ele, no início do ano 2000. Suas próprias palavras, algo que ele escreveu especialmente para este Tyrannus, é o que segue ao final deste texto.

Numa carta.

Foi quando, após um telefonema para ele, combinamos uma entrevista, por carta. Eu enviei nove perguntas e cheguei a duvidar se ele me responderia. Uns vinte dias depois, eis que me chegam cinco respostas, escritas manual e carinhosamente pelo poeta, com sua letrinha miúda, como ele próprio também era, antagonizando a grandeza da sua literatura.

Guardo esta carta numa preciosa pasta e exibo-a ou a releio, cheio de orgulho... Aqui vão só trechos das respostas. Perdi as perguntas e nem me lembro mais onde a entrevista foi publicada!

Imagem do documentário "Só 10% é mentira"


“Acho que ninguém escreve, ou faz qualquer arte, sem esperança de ser apreciado, lido e gostado. Todos, com certeza, gostariam de atingir, com a sua arte, ao menos uma meia dúzia de amigos e a namorada”

“Sou um manobreiro de palavras e as manobro para criar imagens poéticas com efeitos estéticos”

“Não penso que poesia seja alguma coisa, ou que deva ser alguma coisa ligada a problemas sociais, urgentes. De minha parte sempre achei que poesia é apenas o mel das palavras”

“Sempre em toda minha vida desejei escrever torto, numa sintaxe torta e agora falando como criança tenho oralidades mais tortas”

“Sou pantaneiro, nasci na beira do Cuiabá e fui criado até nove anos no Pantanal de Corumbá. Mas a minha poesia tem a pretensão de ser do mundo, porque é feita de palavras e não de paisagens”

“Acho que quando a gente toma consciência de que tem o terceiro olho, pensa alto. (O terceiro olho, como está no Édipo Rei de Sófocles, é o olho da arte. É a mistura do olho divinatório com o olho do conhecimento. Arrematava Sófocles que só o dom não produz poesia. Nem só o conhecimento. De forma que é preciso que haja os dois)”

Epílogo

E agora o que prometi lá em cima, no prólogo. Não me recordo direito se antes ou depois da passagem do milênio, Manoel veio a Cuiabá para receber uma homenagem na Academia Mato-grossense de Letras. Cheguei atrasado ao evento e fui logo informado de que ele não daria entrevistas. 

Adentrei-me no casarão e não havia lugar pra sentar na frente, onde já estavam vários jornalistas e cometi uma audácia. Instalei-me praticamente ao lado dele, em pé. No curso da solenidade - essas coisas costumam ser enfadonhas, cheia de pausas e morosidades frívolas, aproveitei para puxar assunto. Disse que era jornalista e algo tipo: "O senhor não vai dar entrevistas?". Ele disse que não daria e eu quis saber a razão disso. "Ora, vocês escrevem coisas que eu não disse...". Tentei contornar dizendo que contradições podem espicaçar o raciocínio e fazer as pessoas pensarem, produzindo resultados bons. E ele foi taxativo: "Pode ser bom pra vocês, mas pra mim é uma merda". Tomei no olho.

Já em 2005, durante a Literamérica, tivemos uma longa conversação, regada com muitas cervejas. Entre os temas desse bate papo, o bairrismo, as encrencas históricas entre a rivalidade ferrenha que já houve entre Cuiabá e Campo Grande. 

Narrei-lhe uma piada, um suposto diálogo entre um cuiabano e um campo-grandense, sendo que este segundo troçava o cuiabano por causa do sotaque, mencionando bares famosos de Cuiabá nos anos 70 e 80, como o Chuá, o Chalé e o Chopão, que existe até hoje. Dizia o cara de Campo Grande: "Em Cuiabá ocês vão tudo no Tchuá, no Tchalé e no Tchopão...". O cuiabano rebateu prontamente: "Ocê esqueceu de dosh: tchô cu e tchá mãe, disgramado". E o campo-grandense tomou no "oio".

Bom, de tudo que eu disse aqui, talvez pela minha memória ou pela minha tendência a inventar, já que sou ficcionista, pode ser que a verdade não seja tão plena. Entonces, cabe dizer que "só dez por cento é mentira".

nequinho

Recorte da arte do filme "Só dez por cento é mentira" (2010)

 

 


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