PROSA

No interior da tarde*



Ele olhava os fios de cabelo longo não varridos na sala enquanto o menino grunhia em sua frente. Para o grunhido, teve olhos parados vendo a garganta inarticulada afrouxar em choro. A mulher saiu da cozinha já puxando o seio. Cheio de mornidão, o menino dormiu para longe e ele perguntou da demora do almoço. Com a blusa molhada de um lado, ela voltou do quarto dizendo que já ia ser, já ia ser sem olhar para os seus olhos altos. Ele disse que não era caso de ela responder assim outra vez. 

Comeram. Ele se deitou no quarto, ela tomou banho. Ele acordou com o som do celular dela, que tinha colocado perto do seu. Uma frase perguntava como ela estava. Ele deixou o celular, que continuava perguntando e chamando-a pelo nome que ela desusou quando cresceu. No banheiro, o chei­ro ainda forte do creme dela o tirou da cama para querer saber. Se aquelas eram as suas paredes, se só ele quem lhe podia a pele, se então? Ela o ouvia enquanto a cozinha assen­tava nos azulejos a gordura do almoço.

Ele foi junto quando ela saiu do banheiro pra ver o me­nino, que dormia ainda. No quarto deles, ela procurou o ce­lular perto da cama. Ele disse que hoje ia ficar com o celular dela sem precisar dar conta. Quando ela levantou os braços, as mãos dele pararam seus pulsos e a chacoalharam até as pontas dos seus cabelos pretos.

Com os braços abaixados, ela voltou sozinha ao quarto do menino, abriu rápido a janela e veio um vento sobre o calor que enxameava o seu rosto. Ele foi perguntar da camisa passada, que já estava perto da sua hora de sair. Ela apontou para a cadeira e ele bateu a porta.

No táxi, a camisa social amassava sempre mais a manga esquerda porque ele dirigia com o cotovelo pacato para fora quando não tinha passageiro. Fez corridas no final da tarde e agora atravessava a cidade no contrafluxo. Naquele horário, tudo já estava parando e queria chegar ao ponto antes de o expediente público acabar para correr os trajetos que devol­viam as pessoas às suas casas.

As luzes do dia útil se desligavam mais pontuais nos pré­dios de mastros, brasões e estrelas na sexta-feira. Ponto no sistema, a sexta hora, os passageiros já enchiam as calçadas. Estacionou na praça das Bandeiras e conferiu outra vez o celular dela antes de ativar o silencioso. 

 

*Conto reproduzido do livro "Água não tem galho" (Carlini & Caniato Editorial), lançado recentemente e já reportado aqui no tyrannus

andreza

Andreza Pereira nasceu e vive em Cuiabá, nesse sol de impressionar as retinas. É jornalista e tem textos publicados em antologias coletivas, como "Poemas no ônibus e no trem" e "Antologia de Poesia Helena Kolody". É doutoranda em Estudos de Linguagem pela UFMT, onde tem estudado a relação entre jornalismo e literatura. Contos de sua autoria estão presentes na obra coletiva "Água não tem galho", que acaba de ser lançado


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