CRÔNICA

Aguenta o rojão*



troppo

Pra que essas explosões ensurdecedoras?

Foguetório. Estrondam por toda parte os rojões para desespero de cães, gatos e um bocado de gente que têm verdadeiro pavor desses pipocos com sei lá quanto decibéis... Isso lá é jeito demonstrar a alegria? De comemorar? E na festa da virada eles vão ribombar em nossos ouvidos. É preciso comemorar em alto e bom som, doa a quem doer? Não se poderia ater às formas lindas que fazem brilhar mais o céu? Época dourada para quem comercializa os fogos de artifício. Perigosa, especialmente, para quem gosta de tomar umas e outras e riscar o fósforo.

Desde as festas juninas eles andaram tímidos, para agora retornar com força total. Quando sobem aos céus e lá em cima se multiplicam em pontos de luzes não tem como não ficar olhando, admirando. Um espetáculo bonito de se ver. Mas... precisava ser tão barulhento, tão agressivo à nossa audição.

Na escala particular de tolerância ao foguetório, passamos pelos inofensivos estalos de salão e chegamos até, no máximo, os traques. Mas não aqueles traques que são soltados por causa dos gases e da flatulência, que provocam revoluções internas em nossos organismos e afloram, geralmente, acompanhados pelo desagradável cheiro. São aqueles outros traques... vocês sabem. Peidar na festa é feio.

Mas rojão, gente boa. Rojão, convenhamos, é coisa que deveria sair de moda. Poderia muito bem começar a ser proibido e, com o passar dos anos, quem sabe a gente se acostumaria a não ouvi-los e então, finalmente, cairiam no esquecimento.

Não sei onde nem quando surgiu essa história de se comemorar com sons estrondosos. Será porque o mundo vive em guerra? É reveillon, é noite dos santos Pedro, João e Antônio. É gol do seu time de futebol... haja rojão. É carregamento de droga que chega na parada, dá-lhe rojão. É a polícia que fecha o cerco lá embaixo, dá-lhe rojão.

Sei que a pólvora foi inventada na China, mas a impressão que tenho é que os orientais são apreciadores do silêncio, mais do que nós, ocidentais. E me me vem à cabeça agorinha mesmo um texto shakespiriano: muito barulho por nada.

Já existe barulho demais no mundo. E intragáveis sons que vieram com a modernidade, como alarmes de carros e casas. A eles se somam os criminosos urbanos que andam com seus veículos barulhentos e caixas de som potentes, espalhando aberrações sonoras como músicas de gosto duvidoso em altíssimos volumes, ou motocicletas sem escapamento. A multidão de babacas que segue firme e forte... Vai achar ruim pra ver.

Chega de barulho. Chega de conversa. Quero mais é comemorar. Cadê o rojão?

 

*Crônica escrita pelos criadores do tyrannus (lorenzo e fátima) e publicada originalmente em 29 de dezembro de 2012

 


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