LETRAS DELAS

As estrelas e o milagre da separação



A Primeira guerra manifesta, com efeito, a
sujeição do indivíduo às forças impessoais e
todo-poderosas da técnica, que só faz crescer e
transforma cada vez mais nossas vidas de
maneira tão total e tão rápida que não
conseguimos assimilar essas mudanças pela
palavra.
(Jeanne Marie Gagnebin. 1999, p. 59).

 

Um romance é sempre a expectativa do encontro com uma linguagem mágica que nos projete a outro tempo e espaço. Aqui, no caso, o que Stefan Zweig ousou imaginar e não viveu o suficiente para tal. Tal qual Walter Benjamin e inúmeros outros judeus,  sionistas, ou não, que abreviaram a própria vida em face de fantasmas que insistiam em azucriná-los. Em carta a sua irmã (e cunhado), escrita de sua primeira visita ao Brasil, em que esteve na Bahia, relata que

Você não pode imaginar o que significa ver este país que ainda não foi
estragado por turistas e tão interessante – hoje estive nas cabanas dos pobres
que vivem aqui com praticamente nada (as bananas e mandiocas estão
crescendo em volta) e as crianças se desenvolvem como se estivessem no
Paraíso -, a casa inteira, desde o chão, lhes custou seis dólares e, por isso, são
proprietários para sempre. É uma boa lição ver como se pode viver
simplesmente e, comparativamente, feliz - uma – lição para todos nós que
perdemos tudo e não somos felizes o bastante agora, ao pensar como viver
então.

 

1984 – 1916 – 1942 – 1984 -2004 são os tempos cronológicos com os quais o leitor se depara no romance “Judite no país do futuro”, de Adriana Armony. A campanha das diretas já, e seu monumental comício na Candelária, a primeira guerra mundial, a segunda grande guerra, o governo Lula. Até mesmo a lembrança da tanguinha de crochê de Fernando Gabeira me veio ao imaginário soprado ao de Ipanema em que uma das netas de Judite se enfia, junto ao Posto 9.

A protagonista surge ao leitor em várias etapas de sua vida, como a seguir, enquanto criança que “não entendia era por que aquele homem formidável ficava parado enquanto a sua franzina esposa se agitava de um lado a outro para conseguir algum dinheiro”. (p. 21). A própria mãe de Judite a ensinara novos modos para que não fosse subserviente ao machismo judaico: “ouvia a voz sussurrada da mãe, e demorou alguns segundos até entender que estava sendo puxada pelo cotovelo para que subisse pela janela até o telhado, de onde poderia seguir às escondidas até a escola”. (p. 22).

E assim crescia a menina questionadora. “E, num jato de súbita alegria, lembrou-se que estava falando de igual para igual com um homem, mesmo que ainda fosse um menino - o filho de um sábio!” (p. 42). Esta era a Judite criança, ou mesmo pré adolescente.

O Brasil era esse país do futuro. Parecemos estar mais próximos dele há um tempo; lá atrás. A narrativa volta a 1984. A senhora já idosa que não pode mais viver só, como ordenam seus filhos. E ela olha saudosa para a poltrona “onde Salomão preparava o cachimbo tinha se transformado em uma cadeira descarnada”. (p. 222). A ausência da carne sob o espaldar. “Por um tempo, Judite perdera a razão. Passara dias e noites nebulosos batendo a cabeça contra as paredes, desesperada, enquanto registrava impotente o abandono no rosto de José, o pavor no de Débora, a resignação no de Uri”. (p. 226-7).

O olhar fugidio se refugiando entre os pertences. A professora judia. A mulher judiada pelas lembranças, e que “preferia ler os seus livros hebraicos ou fiar em casa com seus pensamentos (já mais velha, Débora se perguntaria que pensamentos seriam esses, mas na época estava preocupada demais consigo mesma e só conseguia ficar irritada)”. (p. 234).

A narrativa trafega pelo tempo narrativo para acusar a mudança de hábitos. Ao perceber a gravidade da enfermidade da mãe, Débora se ausenta do hospital com a desculpa de estar com fome; e se percebe faminta mesmo. “Envergonhada, Débora entra na lanchonete árabe à esquerda da loja”. (p. 235). Não fora atrás de um Beigele, Borscht, Chalá. Nem mesmo um Gefilte fish, Matzá ou Varenike. Que o leitor não pense que eu domine a culinária judia, apenas me servi do cardápio, a título de glossário, oferecido pela autora ao final do livro.

Débora apreciava, nervosa, uma esfiha de queijo (ou seria de verdura?) quando recebe um encostão de um sujeito qualquer. Judite acaba indo morar com a única filha, o que provocara certo ajuste nos cômodos do apartamento. Mariana, a filha mais velha de Débora, com a explosão de seus hormônios é a dona do biquíni de crochê que, à semelhança da sunga do ex deputado causava certo furor em Ipanema. O pai era um artista plástico, bom vivant; o filho, aos doze anos já interessado na secretária do lar. A irmã mais nova e seus caprichos de caçula.

A narradora sugere uma gravidez de Luísa, filha de Uri, em 1984, e em 2004, sua filha é que está se casando. A ideia que fica é a do desfazimento dos hábitos judaicos com os passados tempos, quer seja pelos hábitos alimentares, quer seja pela presença de certo apreço por um “gói” – um não-judeu, como pretendente. No mais, só lendo mesmo essa preciosidade...

Judite saíra com o poema de João Ramalho em suas mãos, o mesmo que Débora pensara ser de autoria do pai – não são apenas os pais que se enganam quanto aos filhos, a recíproca nos parece aqui extremamente verdadeira. Enquanto Luísa percorre as plataformas da estação rodoviária em busca de sua avó, a mesma se confunde com a multidão na Candelária. Pensa ser de João a voz que comanda a massa. E vê a neta Mariana passar a sua frente na companhia de um garoto em atitude suspeita, que o leitor enxergará em detalhes pela narrativa precisa em meio à turba.

Por mais que pareçam diferentes, as situações ainda são, no mínimo, similares. O país, assim como Judite, naquele momento clamava (e ainda clama) por uma espécie de salvador da pátria (agora armada) enquanto não enxerga um só palmo adiante do nariz. Meus ouvidos parecem ouvir ao Belchior, o cantor e compositor cearense para quem “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”....

 

REFERÊNCIAS

ARMONY, Adriana. Judite no país do futuro. Rio de Janeiro: Record, 2008.

GAGNEBIN, Jeanne Marie. História e Narração em Walter Benjamin. 2. ed. São

Paulo: Perspectiva, 1999. 

 

*Texto de Luiz Renato Souza Pinto, poeta, escritor, ator e professor. Colabora mensalmente com o tyrannus, através da coluna LETRAS DELAS, onde envereda por literaturas escritas por mulheres

adriana armony

A carioca Adriana Armony é escritora com doutorado em Letras pela UFRJ. Já escreveu os romances "A Fome de Nelson" (2005), "Judite no País do Futuro" (2008) e "Estranhos no aquário" (2012). Foi uma das organizadoras (ao lado de Tatiana Salem Levy) da antologia "Primos", que reuniu contos de autores brasileiros de origem árabe e judaica


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