PROSA

Um pedacinho de "Inclassificáveis"*



Quando a velha serpente mágica finalmente foi desmembrada e morreu, apareceu na bodega de Mané Torto um homem estranho, muito provavelmente o último inclassificável que sucumbiria à bonomia de Cartesinos. No inconsciente, muitos frequentadores podiam jurar que o sujeito era conhecido, mas não sabiam precisar de quando ou de onde. Vestia-se sobriamente, paletó claro e chapéu de palha, sapatos pretos e cinto combinando. Pela voz, Dito Bola Sete que não desviava a atenção do desconhecido, não divisou quem seria. Nem pela postura, os trejeitos, as roupas e o modo de comer. No entanto, ao ingressar no botequim  para iniciar o porre noturno, Taumaturgo Botelho deu uma mirada longa e penetrante no forasteiro que discretamente comia uma sopa de legumes. Quem é vivo sempre aparece!, gritou antes da primeira tragada de conhaque. Apeteceu ao filósofo plantar a dúvida nos colegas de pileque. O homem era conhecido? De quem sd tratava? Pelas contas do povo de Cartesinos, não havia inclassificável que continuasse à margem da gravidade local. Todos os artistas que lidavam com o insólito foram fagocitados pela dura realidade cartesiana. Somaram-se com naturalidade aos hábitos do povoado. Inclusive na sesta que a maioria dos vizinhos faziam depois do almoço. Espinhavam-se na cama, suavam durante a tarde incandescente para despertar no crepúsculo morno. Os que não foram integrados à igrejinha, viciaram-se na vida mundana do botequim, nos mexericos da praça, nos bingos beneficentes que a mulher do prefeito organizava. Então quem era? O homem não tinha adereço algum, tatuagem ou cicatriz. Tinha estatura média, nem mais alto ou mais baixo do que qualquer cartesiano médio. No rosto, a barba bem aparada, os cabelos cortados rentes, as orelhas pequenas eo queixo pontudo não identificavam nenhum conhecido. Os senhores não o reconhecem, meus patrícios?, tornou a gritar Taumaturgo Botelho, entornando para dentro da goela a quinta dose de conhaque rascante que Mané Torto anotava na caderneta. Ninguém se manifestou. Os amigos ciclopes preferiram continuar trabalhando como se nda soubessem e o dono do botequim não lograva êxito ao examinar o forasteiro de cima a baixo. Nem se a verdade cuspisse na cara dos senhores seria possível ser notada! Ah, povinho cego esse nosso!, gargalhou o bêbado cada vez mais embriagado e filosófico. Não foi outro barbudo quem disse que a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa? Ora, ora, concidadãos! Onde está o espírito cartesiano? Incomodado com a grita tão eufórica quanto ébria, o desconhecido pediu a conta e pagou pela sopa. Antes de se levantar, porém, ouviu Taumaturgo Botelho do outro lado da bodega. Apresente-se, cabeça barbada! Diga aí qual é a sua graça! havia na voz do bêbado um rancor característico  dos desacreditados que triunfam. O povo de Cartesinos não deu crédito a taumaturgo quando denunciou as lorotas circenses na noite da apresentação. Doía-lhe particularmente a cabeça barbada cuja realidade era tão inverossível que o fez duvidar de si mesmo e da qualidade do ponche de abacaxi que tomava. Resolveu, então, escarnecer de seus patrícios cartesianos. Povo lesado! A ilusão afeta mais quem vê somente o que quer. É por isso que todo mundo aqui é enganadoa não mais poder! Esse aí de terno, sapato e chapéu é a cabeça barbada. Sim, senhores! Não percebem? Reparem nos olhos, no cabelo, na boca. Mirem a barba na cabeça! De fato, a temível cabeça barbada qye havia surrupiado a sanidade de vários cartesianos agora estava ali por inteiro: cabeça, tronco e membros. Longe da toalha negra em que escondia o resto do corpo, o homem soltou um sorriso amarelo e saiu com a pressa dos foragidos. No dia seguinte, resolveu evadir-se. O cabeça barbada arrumou a trouxa e seguiu léguas à procura de uma carona para a capital. Acordou antes do amanhecer e partiu a pé, de tão preocupado com as escaramuças de Taumaturgo Botelho ou quem mais bebesse e perdesse o juízo.

 

*Reproduzido do livro "Inclassificáveis" (Carlini & Caniato) que, junto com outros quatro títulos, faz parte da coleção Contos Estranhos 

osmar cabral

mahon

Eduardo Mahon é escritor e dramaturgo carioca, estabelecido em Cuiabá há vários anos, onde iniciou-se nas letras. Já publicou romances, contos e poesias. Com vários livros lançados, é um dos autores mais profícuos de Mato Grosso. Também vem atuando como dramaturgo e, nos últimos anos, está trilhando pelo universo acadêmico, encorpando seus conhecimentos e habilidades literárias. É criador e redator da Revista Literária Pixé, uma publicação virtual que congrega literatura e artes plásticas, com participação de artistas de Mato Grosso e do Brasil

 


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