PROSA

Coração Madeira (trecho)



Darei conta, darei conta.

Precisava acreditar que daria conta, sim, sobretudo de ensinar as crianças a cantar, falar versos, sonhar. Pais, mães, velhos, todos daquela colônia ajudaram a Filha do Meio a fazer daquela casa, na fileira de casas atrás da casa dela - também de madeira bruta, sem forro, sem mata-juntas, uma escola. Limparam, lavaram, lixaram as carteiras  feitas com madeira bruta, pregadas com pregos e lixadas com lixa número cem. Era um mutirão de amor no meio das entranhas do sertão.

Foi preciso lixar, remover, retirar as farpas porque ninguém queria pedacinho de madeira entrando em dedo de criança naquela comunidade onde o sol esparramava veludo vermelho no céu nascente e poente e metralhava rajadas de raios vivos durante o dia inteiro daquele céu azul anil, sem nuvem alguma, nenhum chumaço de algodão que fosse.

Os pequenos leram, escreveram, calcularam, cantaram, falaram versos. Era alento, alegria, comoção para o coração da Filha do Meio ensinar alguma coisa que fosse daquilo que sabia, podia e queria partilhar. As manhãs da vida daquelas crianças e da vida da professora eram um universo separado, apartado, fabulado na clareira da mata, nos confins da gleba.

Combinaram, pactuaram que aquele seria um mundo tão e só deles onde pudessem ouvir e também contar histórias. Uma outra parte da Filha do Meio foi nascendo naquele espaço meio real, ficcional, fantástico onde todos eram reis, rainhas, dragões, princesas, príncipes, astronautas, mergulhadores, seres encantados de todo jeito e feitio e tudo o que decidissem ser debaixo daquele teto da escolinha de madeira. A professora que morava dentro dela foi crescendo e ela viu a luz brilhando dentro dos olhos dos pequenos e ficou feliz. Deu conta.


*Reproduzido do romance "Coração Madeira", de Marli Walker, publicado e lançado pela Carlini & Caniato em 2020

marli walker

Marli Walker nasceu em Santa Catarina, mas veio para Mato Grosso aos 18 anos. Inicialmente, viveu mais de 20 anos em Sinop, mas já está há vários anos em Cuiabá, onde é professora do IFMT. Tem sólida carreira acadêmica, com mestrado e doutorado, tendo as letras como lastro. Já lançou quatro livros de poesia, com destaque para "Apesar do amor" (2016), contemplado por editais do MEC e da Prefeitura de São Paulo; e "Jardim de ossos" (2020), obra vencedora de edital mato-grossense. "Coração Madeira" é o seu primeiro romance

 


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