PROSA

Conta-Gotas*



Eu velarei a noite inteira, mãe, estarei atenta ao conta-gotas nas horas certas da medicação, creia. Conseguirei o seu perdão por tantas falhas, tanta frustração. Ah, mãe! serei motivo da sua admiração, a senhora se esquecerá da da menina sem encantos, da mocinha sem brilho, se esquecerá da perda do seu filho. Eu, prometo lhe recompensar pela moça sem beleza, pelo genro pífio, de profissão modesta e ambição tacanha. Minha fé tamanha  trará a recompensa. O médico me disse que com algum cuidado levarei a gestação até o fim, é certo sempre ter sido um tanto frágil e sem viço, mas, desta vez, vou dar conta do serviço. Isso é vital pra mim: terei nosso menino. Eu me vejo entrando em sua casa, por uma vez vitoriosa, levando o neném nos braços envolto em manto azul, será notinha, meu ventre ainda abaulado, meu peito cheio. O passo cuidadoso do pós-parto, seguirei até seu quarto, que fica logo após o meu de filha pouca; minhas mãos seguirão até sua direção , lhe entregarei meu filho mãe, que será nosso. Nossas tardes após então, serão serenas e seremos íntimas  e cúmplices.

A senhora me ensinará todos os cuidados, estaremos próximas, talvez voltemos a morar juntinhas. Talvez eu não descubra como ser mãe sozinha. Só preciso de repouso, de descanso pra atravessar por essas seis semanas, o remédio que me deu o médico nem é ruim, só tenho que atentar ao conta-gotas.

 

*Reproduzido do livro "Conta-Gotas" (2007), com poemas em prosa de Luciene Carvalho

luiz marchetti

luciene

Luciene Josefa Carvalho nasceu em Corumbá (MS), mas faz tempo que virou cuiabana e vive no tradicional Porto, bairro ligadíssimo à história de Cuiabá (MT). Já lançou mais de dez livros e sua literatura, desde quando começou, vem sendo alvo de muitas distinções. É orgulhosa da sua negritude e gosto de classificá-la como uma pessoa que veio ao mundo para mudá-lo


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