ROMANCE

O Inominável (trecho inicial)



Onde agora? Quando agora? Quem agora? Sem me perguntar isso. Dizer eu. Sem o pensar. Chamar isso de perguntas, hipóteses. Ir adiante, chamar isso de ir, chamar isso de adiante. Pode ser que um dia, primeiro passo, vá, eu tenha simplesmente ficado, no qual, em vez de sair, segundo um velho hábito,passar o dia e a noite tão longe quanto possível de casa, não era longe. Pode ter começado assim. Eu não me farei mais perguntas. A gente pensa que vai só descansar, para agir melhor depois, ou sem outra intenção, e eis que em muito pouco tempos estamos na impossibilidade de jamais fazer alguma coisa. Pouco importa como isso aconteceu. Isso, dizer isso, sem saber o quê. Talvez eu tenha apenas confirmado um velho estado de coisas. Mas não fiz nada. Pareço estar falando, mas não sou eu, de mim, não é de mim. Algumas generalizações, para começar. Como fazer, como vou fazer, que devo fazer, na situação em que estou, como proceder? Por pura aporia ou então por afirmações e negações invalidadas à medida que surgem, ou mais cedo ou mais tarde. Isso de um modo geral. Deve haver outros caminhos indiretos. Se não, seria para se desesperar de tudo. Mas é para se desesperar de tudo. Notar, antes de ir mais longe, mais adiante, que digo aporia sem saber o que isso quer dizer. Podemos ser eféticos de outra maneira que não seja à nossa revelia? Não sei. Os sim e os não, isso é outra coisa, eles me voltarão à medida que eu progredirei, e a maneira de cagar em cima, cedo ou tarde, como um pássaro, sem esquecer um único. Diz-se isso. O fato parece ser, se é que nesta situação em que estou se pode falar de fatos, não somente que vou ter de falar de coisas de que não posso falar, mas também, o que é ainda mais interessante, que eu, o que é ainda mais interessante, que eu, não sei mais, isso não importa. No entanto sou obrigado a falar. Não me calarei nunca. Nunca.

*Primeiro parágrafo do romance "O inominável", de Samuel Beckett, reproduzido da edição da Nova Fronteira (1989), tradução de Waltensir Dutra. O romance é a parte final da trilogia composta pelos livros "Molloy" e "Malone morre".

 

beckett

Samuel Beckett (1906-1989) foi um dramaturgo, romancista, crítico e poeta irlandês de expressão inglesa e francesa. Projetou-se internacionalmente com a peça "Esperando Godot", passando a ser considerado um dos representantes do teatro do absurdo. Ganhou o Prêmio Nobel em 1969 e sua produção já foi traduzida para mais de 30 línguas. A riqueza metafórica e o pessimismo em torno do ser humano estão entre as principais características da sua literatura




 


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