PROSA

"O coronel e o lobisomem" (fragmento)



"Era trabalho de gelar qualquer cristão que não levasse o nome de Ponciano de Azeredo Furtado. Dos olhos do lobisomem pingava labareda, em risco de contaminar de fogo o verdal adjacente. Tanta chispa largava o penitente que um caçador de paca, estando em distância de bom respeito, cuidou que o mato estivesse ardendo. Já nessa altura eu tinha pegado a segurança de uma figueira e lá de cima, no galho mais firme, aguardava a deliberação do lobisomem. Garrucha engatilhada, só pedia que o assombrado desse franquia de tiro.

Sabidão, cheio de voltas e negaças, deu ele de executar macaquice que nunca cuidei que um lobisomem pudesse fazer. Aquele par de brasas espiava aqui e lá na esperança de que eu pensasse ser uma súcia deles e não uma pessoa sozinha. O que o galhofista queria é que eu, coronel de ânimo desenfreado, fosse para o barro denegrir a farda e deslustrar a patente. Sujeito especial em lobisomem como eu, não ia cair em armadilha de pouco pau. No alto da figueira estava, no alto da figueira fiquei." 

 

*Dois parágrafos do romance "O coronel e o lobisomem", de José Cândido de Carvalho, reproduzidos do site https://brainly.com.br/

carvalho

José Cândido de Carvalho (1914-1989) nasceu em Campos de Goitacases e faleceu em Niterói, cidades do Rio de Janeiro. Foi jornalista, romancista, escritor, cronista e bacharel em Direito, filho de um casal de camponeses. Não deixou um legado volumoso, mas a qualidade de sua obra é inquestionável. Apesar de ter conquistado um Jabuti e ter sido eleito para a Academia Brasileira de Letras, Cândido de Carvalho é um autor brilhante que continua merecendo visibilidade e estudos mais aprofundados. Sua obra mais conhecida é "O coronel e o lobisomem", livro que foi best-seller no Brasil, publicado em Portugal e traduzido para inglês, espanhol, francês e alemão

 

 


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