PROSA

A faca e a motocicleta*



Quando o senhor Cláudio Kimeu viu jogados os sapatos Anton Joseph Zummer Shoes, de número 37, logo entendeu que eram os seus, porque havia um pequeno esfolamento no canto de dentro, entre o couro e o solado. Vendo os sapatos no chão, sentiu subir-lhe ao coração um ódio vulcânico. Lembrou-se, tal como num filme, de tudo o que enfrentara todos esses anos no jornal. Em seguida, subiu na motocicleta e saiu bufando. 

Para quem não sabe: as motocicletas carregam uma sina arriscada e terrível — o raivoso motor à explosão localiza-se logo abaixo do assento. E este assento acomoda de bom grado a virilha, as ancas, le orifice, e, se sendo do sexo masculino, o sofrível testículos, de modo que a intensa reverberação ferruginosa do motor à explosão repercute direta e negativamente em todo o arcabouço do motociclista, de baixo para cima, causando-lhe estresse e raiva, e ainda aquilo que os americanos denominam de “exciting”. Em qualquer lugar do mundo, o fogo é “puro ódio e em si” — como disse Sartre, e é um ente absolutamente imparcial. Por causa disso, recai,tal e qual uma fera,sobre tudo e todos, se não houver controle e precaução. Mas, quando o fogo está cativo (no motor) seu ódio é sobrenatural! E tal a água parada, se é fogo armazenado, apodrece! Consequentemente pesa — sobre todo aquele que anda com fogo de motor à combustão debaixo do cóccix — o precedente da ferocidade e que pode fazer surtar o motociclista a qualquer momento, como os gatos quando lhe puxam o rabo. 

Cláudio Kimeu lançou os sapatos num recanto da via (isto não porque calce 40). Tremendo, saiu mais ou menos a 90 quilômetros por hora. Correu duas avenidas, quase vazias naquele início de madrugada. Punhal no bolso, olhos vermelhos, encontrou o carro do editor. Acenou com braço direito, e o motorista parou expressando sorriso incógnito no rosto. Cláudio Kimeu desceu da moto, aproximou-se. Mão direita no bolso esquerdo do blazer e num gesto rápido sacou o punhal. Enfiou-o para todos os lados.

Uma voz potente do céu bradou: "Calma, companheiro!". Ele pensou que fosse a voz da sua consciência. 


 

*Texto reproduzido do livro "Apoteose de Demerval Carmo-Santo" (Parresia - 2021 - 2ª edição), que traz ficções de Wellington Amâncio da Silva. Interessados na obra podem ler a resenha publicada no tyrannus (link abaixo) e entrar em contato com o autor, através do whatts (82) 99949 9693

http://www.tyrannusmelancholicus.com.br/cronicas/13366/a-fica-a-o-ma-gica-de-um-sertanejo-inquieto

wellington

Wellington Amâncio da Silva é escritor e poeta nascido em Delmiro Gouveia (AL). Já publicou livros, ensaios e artigos. "Apoteose de Demerval Carmo-Santo" (ficções) é sua obra mais recente. Ele é membro do corpo editorial da Utsanga - Rivista di Critica e Linguaggi di Ricerca; revisor/avaliador da Revista de História da UEG; Mestre em Ecologia Humana e Gestão Socioambiental pela Universidade do Estado da Bahia - UNEB; Especialista em Ensino de Filosofia (UCAM); e é graduado em Pedagogia e em Filosofia (UNEB; Metodista)

 

 


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