RESENHA

O peso da mão!



Concreto e abstrato são, antes de mais nada, conceitos. A violência simbólica se traduz em inúmeras atitudes reveladas e desveladas diante de nossos olhos.  Em "O Som do Tapa" Carla Guerson apresenta ao leitor algumas dessas possibilidades. São vinte e oito contos, sete dos quais têm seus títulos precedidos por artigos definidos (A parede, O silêncio de Mirela, A menina e o avô, O som do tapa, A história de um rio, As louças, A concorrente), outros nove constituídos por uma única palavra (Dormente, Habilitação, Fotografia, Encontro, Estragada, Fuga, Hospital, Rotina, Avó), sendo oito substantivos e um adjetivo apenas (Estragada); há ainda, e me chamou bastante atenção, um formulado a partir de por dois advérbios separados por vírgula. 

Confesso que fiquei tomado pela obra somente ao ler o décimo conto da antologia: Encontro. É como se a parede, a senhora Zimmermann (sim, com dois “êmes” e o último sozinho), o silêncio de Mirela, a relação da menina com o avô, o Dormente, o barulho ensurdecedor do tapa, o que acontece na estação, a habilitação e, por fim, a fotografia fossem uma preparação para que o leitor (apenas o insistente) que não abandonou o livro mergulhasse no substrato ali contido. 

Do quinto, Dormente, ficou-me um fragmento que mais me pareceu servir para poema: / Até que não exista mais nós, e só exista ele. / Não existe mais nós. / Não existo mais. (GUERSON, 2021, p. 29). Do décimo segundo, Estragada, o do adjetivo, ficou-me martelando o final e percebi que Carla é boa frasista: “Me deixe estragada, para que ele possa me consertar”. (p. 51).

Se o livro apresenta trilha sonora explícita, o concerto que precede a presunção desse conserto anunciado ganha destaque com a sequência em que vieram As louças: “Eu só sei que as louças são minhas, devolva-me, do jeito que a Adriana determinou”. (p. 56-57). E o envolvimento vai se dando aos poucos, quando em 18 anos a frasista vem com tudo: “é bem mais fácil digerir em menos quantidade. Seja comida, sejam verdades”. (p. 62). O incômodo cresce com as revelações da narrativa. Em Fuga, novamente coisa de poeta: “O cigarro na mão de um velho sentado em uma cadeira de plástico foi a última coisa que vi antes de apagar”. (p. 64).

O jogo sonoro e semântico em torno do apagamento (da brasa / da vida) surpreende pela profundidade que anuncia. E o universo melancólico parece transparecer espécie de trauma. E insiste a frasista em Hospital: “Na novela das seis, a mocinha chora a morte de seu amado, enquanto a vilã escapa ilesa”. (p. 69). A sensação é a de que se está próximo de um basta, algo definitivo, portanto, sem volta. Hoje, não: aqui, quatorze vezes se observa o advérbio de negação (NÃO) e ainda inserções do “nem”, e da conjunção adversativa “mas”, cujo nome já indica contrariedades, adversidade. De Querido pai não posso deixar de lembrar, além da ironia contida no título, e que se revela apenas com a leitura do conto, um período maior, para além de uma frase de efeito:

"Que o tapa que ela levava não era por causa da roupa que ela tava usando,
nem por causa do leite que eu tinha derramado no seu sapato. O tapa era
por causa de você, só você.
Esse é o tapa que você nunca mais vai dar. (p. 81)."

O título do livro vem do conto homônimo (o sexto da coletânea) e salta para o vigésimo primeiro (Querido pai). A oralidade do registro destacada acima dá conta da aproximação com o leitor, da intimidade de uma (quase) confissão, talvez indicativa de um percurso reincidente, quem sabe uma luz que ilumina o caminho da repetição, daquilo que a hereditariedade dá conta e invade a corrente sanguínea. 

Mas é em A concorrente que se percebe que “em seu sonho, o traço no olho da boneca ficou perfeito, assim como o corpo da mãe. A mãe lhe dá um beijo e as duas caminham de mãos dadas sem se preocupar em estragar a unha”. (p. 89). Da Rotina – se extraem algumas aliterações que nomeiam seres: Milena, Marcela, Matheus, Murilo. (Dona) Maria, enquanto na Sala de espera habita certa Marina, e em Era uma vez, Manoela. 

"A menininha cresceu e descobriu que era corajosa. Não tinha medo de
palhaço, nem medo de balão. Enfrentava tudo e todos, não tinha medo nem
de confusão. Mas de noite, quando deitava a cabeça em seu travesseiro,
não conseguia dormir. Com o escuro vinham as lembranças, as
preocupações. Seu coração batia forte e ela puxava a coberta até parar de
tremer. Pensava nos pais, na doença, no emprego. Nas contas, nos prazos,
no desespero. No hospital, no ex-marido, na notícia de jornal. Pensava na
filha acordada, sofrendo. Na sua impotência, nos erros que ainda ia
cometer. Na velhice que ia chegar, no caroço que tinha que investigar.
Dormia chorando e torcia para que no meio da noite alguém viesse lhe
abraçar e dizer que não precisava mais ter medo. (p. 104-105)."

A menininha (amiga de Mirela) talvez seja a mesma que se lembra do avô, a que demorou para se dar conta dos buracos lá de baixo, a que acompanha Laura na estação, a da gravidez psicológica, talvez mesmo aquela da Fotografia. Mas é em Encontro que pareço me deparar com a tensão necessária, sobretudo em narrativas curtas. Recorro a James Wood para entender de onde vem essa força romanesca de quem se aventura pela prosa:

"Escutem um ouvido intensamente musical em ação: o de um dos maiores
estilistas da prosa norte-americana, Salu Bellow, diante do qual até autores
de andar ligeiro – Os Upidikes, os DeLillos, os Roths – parecem pernetas.
Como todo romancista sério, Bellow lia poesia: Shakespeare em primeiro
lugar (ele sabia de cor trechos inteiros das peças, desde os tempos de
escola em Chicago), depois Milton, Keats, Wordsworth, Hardy, Larkin e o
amigo John Berryman. (WOOD, 2017, p. 166-167)."

O que poderia parecer defeito, em minhas observações, apresenta-se, com o aval de James Wood como qualidade. O vigor do livro de Carla Guerson pode ter origem no olhar poético sobre o que se deseja contar. Sem essa relação umbilical do tema com a linguagem não se consegue atingir o leitor para além de uma sobriedade que, de modo algum, signifique qualidade. Se para Cortázar o conto sugere nocaute, o tapa de Guerson traz efeito similar e pode tocar, quem sabe, com a mesma intensidade.   

 

REFERÊNCIAS
GUERSON, Carla. O som do tapa. São Paulo: Patuá, 2021. 
WOOD, James. Como funciona a ficção. São Paulo: SESI-SP. 2017.

*Texto de Luiz Renato Souza Pinto, poeta, escritor, ator e professor. Colabora mensalmente com o tyrannus, através da coluna LETRAS DELAS, onde envereda por literaturas escritas por mulheres

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carla guerson

Carla Guerson nasceu em Vitória (ES). É geminiana, mãe, leitora compulsiva e uma apaixonada por histórias e estórias. Graduou-se em Direito pela Universidade Federal do Espírito Santo em 2005 e, em meio às minutas jurídicas, pareceres e relatórios, Carla escreveu diários, poemas, letras de música, cartas de amor, um blog. Muitos contos, crônicas e relatos depois, decidiu se lançar ao mundo literário. "O som do tapa" (Editora Patuá) é seu primeiro livro, mas ela tem textos publicados em várias revistas literárias, coletâneas e antologias


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