PROSA

Por instantes, antes de chover*



Não era possível, mas acontecia, aconteceu. Na praça, perto de um shopping, a menos de dez minutos do meu apartamento. Lá, eu andava ao lado de um sujeito com quem tinha perdido o contato faz tempo.

Ele, esqueci o nome, conversava pelo telefone celular com uma figura pública presa recentemente por causa de crimes divulgados na televisão, rádio e na internet, você deve saber de quem estou falando, sabe?

Enfim, aquele ex-colega estava ao meu lado na praça conversando pelo celular com aquela personalidade sobre sei lá o quê, nunca soube exatamente a respeito do que eles negociavam.

Tanta gente no outro lado da rua, eu ainda na praça e, o que até depois desses fatos continua a me surpreender, é que identifiquei em meio a centenas de pessoas o sujeito que nos últimos tempos usava, principalmente, tênis brancos, calça jeans e camiseta preta.

Atravessei a rua, apesar do sinal verde para os carros e motos, três quase me acertaram. Menos de dezessete passos até observar, sim: era ele quem estava ali.

No instante em que eu iria dizer, oi, como vai?, o sujeito, que até então caminhava na calçada, desviou o trajeto e subiu por uma escada de incêndio de um prédio residencial de sete andares.

Parei, atrapalhando o movimento na calçada, e por segundos tive a impressão de que ele, de tênis brancos, calça jeans e camiseta preta, estava fugindo, para evitar contato comigo.

Mas, ao invés de sumir, ele desce as escadas e, ao chegar ao térreo, sobe de novo, com menos velocidade do que na primeira vez.

Olho, talvez involuntariamente, para a praça, e aquele ex-colega segue gesticulando com uma mão, enquanto a outra segura o celular, por onde conversa com, enfim, você já sabe com quem ele tentava negociar algo que não sei o que era ou é.

O sujeito de tênis brancos, calça jeans e camiseta preta está novamente na calçada, acelero os passos e, enfim, chego até onde ele está, em uma esquina, e o sinal para os pedestres fica vermelho.

Carros nos impedem de atravessar, seguir em frente, o sujeito com quem desejo falar poderia escolher variadas atitudes, e ele diz, oi, como vai?

Me cumprimenta, mas parece ausente, olha para mim, e em seguida o olhar se desloca para algum horizonte onde não estou.

Quanto tempo já estou aqui, ao lado de quem eu jamais poderia cogitar um reencontro? O sinal continua vermelho para pedestres e, então, alguém toca em meu ombro direito.

Pulo, sem controle, alguns centímetros para frente, e ao virar o meu corpo vejo aquele ex-colega, tinha até esquecido dele, que não me esqueceu.

Ao observar o sujeito de tênis brancos, calça jeans e camiseta preta, o ex-colega diz: muito prazer, admiro o seu trabalho!

O ex-colega dizia essas coisas para quase todo mundo. Talvez nem soubesse com quem estava falando, mas falava, distribuindo elogios genéricos, os que costumam funcionar, até mesmo se o alvo não for carente.

Percebo a oportunidade enquanto elogios são feitos continuamente ao sujeito de tênis brancos, calça jeans e camiseta preta: o ex-colega segura o telefone celular — esqueci meu aparelho em casa e precisava, naquele momento, de um.

O sinal fica verde para pedestres, nós três parados e o sujeito de tênis brancos, calça jeans e camiseta preta sinaliza com expressões faciais e movimentos de mãos, se eu não estiver enganado, que a situação o incomoda e ele pode desfazer a cena.

E seria fácil, ele poderia sair correndo e desaparecer em meio a cada vez mais pessoas nas ruas.

Pergunto ao ex-colega se ele me empresta o celular e o sujeito de tênis brancos, calça jeans e camiseta preta me olha, não tenho certeza, mas desconfio, reprovando o meu pedido.

Preciso telefonar para um amigo, dono de uma empresa onde há dezenas de câmeras escondidas. Se eu levar o sujeito de tênis brancos, calça jeans e camiseta preta até lá terei evidências, para conferir quantas vezes for necessário, de que não estou delirando ou dentro de um sonho.

O sujeito de tênis brancos, calça jeans e camiseta preta aceitaria posar para uma foto ao meu lado?

Mas uma foto feita por um celular, sem a data, e mesmo com a data, não seria suficiente para provar um encontro com o sujeito de tênis brancos, calça jeans e camiseta preta.

Convido o sujeito de tênis brancos, calça jeans e camiseta preta para me acompanhar até a empresa daquele amigo, espaço em que há dezenas de câmeras escondidas.

Explico que é possível chegar lá, no endereço para onde pretendo seguir, em menos de quinze minutos, o sujeito não diz nada e me acompanha ao lado do ex-colega, o que segura o celular com uma das mãos e gesticula com a outra.

O ex-colega fala, sem parar, segue elogiando e, enquanto andamos, lembro que o sujeito de tênis brancos, calça jeans e camiseta preta não caminhava, deslocando-se apenas dentro de carros pelas ruas desta cidade.

Ventou, iria chover, muito, de inundar ruas, com bueiros transbordando, interrupção de energia elétrica, entre tantos transtornos, e acidentes, incluindo mortes, mas antes disso ventou.

E no início do vendaval, em que placas comerciais voavam, pessoas corriam para dentro de lojas e outras portas abertas, também vi redemoinhos, poeira a alguns centímetros acima do asfalto — foi ou deve ter sido durante aquele intervalo que o ex-colega me avisou que estava indo para casa e o sujeito de tênis brancos, calça jeans e camiseta preta — sem avisar — desapareceu, apesar de eu ter lido em mais de um jornal e em alguns sites que ele já estava morto há pelo menos seis, sete meses.

 

*Conto reproduzido do site https://www.bpp.pr.gov.br/Candido/

 

marcio

Marcio Renato dos Santos é autor de oito livros de contos, entre eles, "A Certeza das Coisas Impossíveis" (2018) e "A Cor do Presente" (2019), sendo este último, escolhido em 2020 pela Fundação Cultural de Curitiba para o acervo do aplicativo Curitiba Lê. Sua ficção já foi traduzida para o alemão. Além de escritor, é jornalista e mestre em Estudos Literários pela UFPR, nasceu e vive em Curitiba

 


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