PROSA

Tira a minha roupa? *



Gosto do inverno, mas tudo que gosto tem o poder de me tirar algo importante. Vou escolhendo com cuidado meus desejos, porque carrego o medo de perder. O frio me tira a dormida pelada. Durmo melhor sem roupa, em algum momento meu corpo precisa respirar como as plantas de apartamento, que se organizam apertadas na varanda. Caminhar nua em casa é sensual de assistir, não importa que corpo adulto seja, vejo sensualidade. Sei que em mim ela não reside, mesmo que eu queira.

Quando faço fotos minhas sei qual o lado é mais charmoso, conheço que tipo de fotografia erótica me deixa atraente, não só para quem vou mandar as fotos, mas para eu mesma. Quase todas as poses são gritos. Não é um acúmulo de egocentrismo, são todas as minhas tentativas de me aceitar.

Aceito. Gosto.

Algumas vezes só fico em dúvida se essas fotos pelada que carimbo com um sim capturam a mesma mulher que vejo quando olho para baixo no banho ou quando coço a xoxota enquanto vejo uma série romântica, que não posto na rede social.

Não é sobre os outros. é sobre eu mesma.

Odeio me deixar saber o quanto gosto de pensar em romance. Esse romance que falo mal, não por hipocrisia, mas porque sei que toda vez me joga da montanha mais alta. Sou obrigada a juntar minhas próprias vísceras e dizer opa, foi só um arranhão, tudo bem. Então, é melhor seguir assim, uma mulher editada. Para que aos poucos me ame, com cautela. Tem partes minhas que é difícil de amar. Quando não estão na internet parece que não existem ainda. Vou deixando emergirem aos poucos.

Respira. Inspira. Solta.

Hoje já posto fotos de corpo inteiro, na adolescência só postava fotos do rosto, apenas um lado para ser mais precisa. A foto de corpo inteiro que posto, agora que sou adulta, é filha de novecentas ninhadas de duas mil fotos. É o experimento genético que saiu quase perfeito depois da morte de um país de cobaias, que estão ali na grade da pasta / imagens para me lembrar de quem sou. Não sou nenhuma foto, mas uma versão aproximada do que sou são as presas na grade dentro da pasta… do celular e do meu medo de amar uma versão que acho estranha de mim. Talvez seja sobre os outros, mas eu digo que é sobre minha existência para não me sentir um peso para ninguém.

Postei uma foto nova, é linda, os seios à mostra, um pouco de bunda, não muita. A legenda deveria ser bata punheta para uma mulher morta. Ainda tem algo de morte dentro de mim, sorrio, tento todos os dias, mas ainda tem aquele cheiro de algodão na narina, um líquido podre escorrendo por trás de tudo. Tem um cheiro diferente depois que acabo de me masturbar. É tristeza com vazio. Lambi os dedos da última vez e o sabor era forte, de quem desistiu de dizer tudo. Tá tudo bem, não se preocupe – respondo no privado enquanto definho.

Gosto de dormir pelada porque é confortável, se eu morrer dormindo fica mais fácil o processo se tiver sem roupa. Nunca deixei muitas pessoas tirarem minha roupa, quando vou trepar com alguém sempre vou tirando logo tudo, é menos doloroso quando você entra debaixo do chuveiro de uma só vez. Não sei a sensação de alguém me vestir, não lembro de sentir alguém me vestindo quando era criança, a gente esquece as coisas boas. Penso todos os dias e peço para nunca sofrer um acidente de carro, porque não quero que ninguém tire minha roupa. O problema não é estar pelada. Se a única saída é tirarem minhas roupas, seja no prazer, no acidente ou na morte. quero que seja eu a pessoa a fazer isso.

Não tenho sensualidade quando caminho pela casa pelada,

tenho medo.

Isso sim,

não é sobre os outros,

é sobre minha pele descolando.

*Reproduzido do site http://ruidomanifesto.org/ , seleção de Divanize Carbonieri

monoque

Monique Malcher nasceu em Santarèm (PA). Foi vencedora do Prêmio Jabuti (2021), na categoria contos, com o livro "Fklor de Gume" (Editora Jandaíra), sua obra de estreia. Tem graduação em jornalismo, mestrado em antropologia e doutorado em ciências humanas. A escritora tem se destacado no cenário literário feminino amazônico. Editou a zine "Segredo", com 13 escritoras do seu estado, resultado do curso de autopublicação, ministrado por ela no Sesc no Pará. É uma das curadoras da antologia de escritoras paraenses "Trama das Águas", da Monomito Editorial

 


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