PROSA

A ponta da colcha amarela



A sobrancelha esquerda levemente arqueada e a mão direita na face, com seus dedos espalhados, o polegar abaixo do queixo. Esta é a foto da orelha de fundo da publicação. Julia Baranski (sem o acento [tão] agudo) por ela mesma em sua câmera clara. Fotografia, ou autoficção? Leio seus vinte contos em sequência, respeito quase sempre a cronologia. Em conversa comigo mesmo, ao pé de orelha da publicação, vejo que três dos contos já foram publicados. Dois em Off-Flip e um em revista de literatura da USP; este (Desenovelamento), não se encontra por aqui.

No “Tabuleiro de Sonhos”, esta moradora da Bahia traz à feira o que a escritora tem. Vejo uma litania sub-reptícia que pode caracterizar a própria redenção pela escrita. Sei que são todos brancos [os habitantes da casa] de “Negrinha” e sigo as intertextualidades propostas. E que são muitas, tantas quanto as leituras possíveis de seus contos. Às vezes pareço estar diante de uma contação de histórias, da Bahia, do Rio de Janeiro, de São Paulo, do mundo. 

Fala-se de comunidades primitivas e de como a alta literatura não tem como dar jeito nisso. Penso que sim, a literatura nativa busca seu próprio cânone. E nada tem a ver com “Iracema”. Davi yanomami, Aílton Krenak, Daniel Munduruku, Márcia Kambeba, Eliane Potiguara, Graça Graúna e muitos outros têm o que dizer. Mas entendo a simbologia. Viajo na própria “Rua do Símbolo”, como fosse habitante durante a leitura daquele pedaço de chão.

"A minha casa tinha três andares e, no jardim, havia uma portinha para a passagem do cachorro [que ainda não tínhamos], do quintal da frente para o quintal de trás. Foi meu pai quem construiu essa passagem secreta, porque ele sabia que um cachorro era somente questão de tempo. E, enquanto o cachorro não vinha. Eu mesma, sempre tão miudinha, atravessava engatinhando a portinha de um lado para o outro, fugindo de alguma coisa que até hoje não sei o nome [o mistério]. (p. 33)."

Ah, Bachelard, tão presente na descrição do jardim, do quintal, da passagem  secreta, como fosse do porão ao sótão, e vice-versa. Não há mistério [fora da linguagem]. Elenco algumas palavras do livro que me chamam a atenção: sonhos, todas, todos, quantas, frente/trás. Há certo quantitativo nisso tudo. As conjunções aditivas, as enumerações, os zeugmas seguem em um processo de aglutinação de imagens que se superpõem. Fragmentos de músicas costuram a malha fina do registro e contribuem para se trazer o fora para dentro da gente. A barraca, a casa, o apartamento, o carpete – desejo para o descanso do corpo.

O “Metrô São Bento” e o rap. A rapidez sem sair dos trilhos. Peroração, justiça social, ética na linguagem. Há o tempo perdido, mas também o tempo partido nesses trinta e cinco anos de alicerce. Teias de aranha e blocos vazados em quatrocentos e vinte prestações. Há saturação no texto para que o elemento exterior facilite a compreensão do interior. E haja fenomenologia para tanto. Tem russo no samba. A morte da linguagem em si se faz presente, dentre os tijolos de amor.

Se baiano não nasce, estreia, como se configura na cultura brasileira, Julia se baianiza com o primeiro livro, e com muito axé. Cada leitor pode montar a sua playlist para acompanhar a leitura. Se você me pergunta qual, ou quais os melhores contos do livro, não saberia dizer. Aliás, não ousaria. Mas se a pergunta for quais os que mais me agradaram, falaram mais alto aos meus olhos, coração e ouvidos, ficaria mais fácil a resposta. Quase todos me sugerem alguma oração. 

Gosto da “Travessia”, o que lembra das Minas Gerais, do Clube da Esquina. A “Canção de regresso à casa” me possibilita pensar as questões de exílio e de colonização do outro, como alertava Saramago, perigosamente. “Estados de Glória” e “O próximo aluamento” me falaram mais alto, gritaram em mim. “O quadragésimo dia” estampa em nosso rosto o que foi a quarentena. 

Estamos ilhados, cada um em seu quadradinho de oito. Julia Baranski é defensora publica [da literatura brasileira]; Logunedé é demais. A literatura não é uma causa impossível. Muito prazer em conhecer!


REFERÊNCIAS
BARANSKI, Julia. Histórias de amor e de morte. São Paulo: Patuá, 2021.


*Luiz Renato Souza Pinto, poeta, escritor, ator e professor. Colabora mensalmente com o tyrannus, através da coluna LETRAS DELAS, onde envereda por literaturas escritas por mulheres

editora patuá

julia

Julia Baranski nasceu em São Paulo (SP). É mestranda em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Feira de Santana. Graduada em Direito pela Universidade de São Paulo, é defensora pública do Estado da Bahia. Em 2011, recebeu menção honrosa pelo conto "Oração" no concurso promovido pelo selo Off Flip na Festa Literária Internacional de Paraty. Em 2012, angariou a terceira colocação no mesmo concurso com o conto "Tempo Partido". Em 2020, o conto "Desenovelamento" foi publicado na revista de literatura da USP "Opiniães". Depois de um longo hiato, retomou a escrita e aposta todas as suas fichas na arte [porque só a arte pode nos salvar desse mundo suicida]. "Histórias de Amor e de Morte" é o seu livro de estreia


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