LETRAS DELAS

LINHA DE CHEGADA



 

Entre o dia 03 de janeiro de 1986 e 27 de abril de 2018, passaram-se trinta e dois anos, três meses e vinte e quatro dias. De um telefonema de aparelho fixo para um toque de telefonia móvel observa-se a modernização das telecomunicações em nosso país. Um universo de mudanças que atravessa o período de mais de três décadas e que define, em meu caso, o espaço entre a perda da mãe e a do pai. Mas a morte continua incólume em seu atributo máximo, ditando o ritmo da finitude da vida.

 “O funeral da baleia”, de Lilian Sais, trata disso, mas não apenas disso e sim, sobre o efeito desse fato na vida íntima de um ser humano. O olhar sobre tal objeto transforma a literatura de Lilian em um aprendizado dolorido, em que pese o lado onírico que se insere a inscrição romanesca, capaz de fazer com que a saudade seja uma pena leve, a voar em direção ao chão batido da existência. 

É com a epígrafe de Gonçalo Tavares que me identifico de imediato: “Errar, circular, hesitar em redor do que não tem solução: um método”. Da imaginação que depreendo o processo de escrita é que parto para a leitura das partes seccionadas:               

ASSUM PRETO
O PESO
O peso das cinzas
A poeira do peso
A exatidão do peso
O preço do peso

Assum Preto é o nome da cidade em que habitam suas personagens. O nome do pássaro pode dar uma ideia de migração, pelo impacto da música eternizada por Luiz Gonzaga, mas é uma ave que canta apenas à noite. O romance traz à baila o cotidiano de um viúvo e sua filha, a solidão do homem, a ausência da menina em boa parte do livro e o vazio que ocupa a cabeça do leito, à espera pelos acontecimentos que se apresentam lentamente, como a passagem do tempo nos relógios de Salvador Dalí, grão por vez, vagarosamente. 

A maneira pela qual a figura se apresenta reforça a condição de mãe ausente, de esposa cuja imagem se pereniza na cadeira vazia à hora das refeições: “Ela é um jeito de ajeitar o cabelo, ela é a expressão que faz quando tira o bolo de café do forno às quatro da tarde de sábado, é aquela cadeira na qual sempre senta para assistir TV, ela é o conjunto de todo o repertório de gestos que ninguém mais faz como ela, porque os gestos são únicos, estou falando, provavelmente, sei lá, de um repertório de duzentos gestos que nunca mais verei sendo feitos do jeito que ela fazia,” (p. 39). 

Gosto da palavra gesto e das possíveis interpretações que abarca. Essa passagem do romance me leva à Francine Prose, em seu capítulo específico para tratar do assunto, no qual se lê que “a linguagem – isto é, a escolha de palavras – pode funcionar como um gesto: o modo como certas pessoas casadas referem-se aos cônjuges como ele ou ela é um tipo de gesto, comunicando posse, intimidade, orgulho, aborrecimento, tolerância ou uma combinação dessas coisas”. (PROSE, 2008, p. 206-207). 

A narrativa segue o fluxo e o cronotopo se apresenta de modo mais enfático àquela QUINTA-FEIRA - 08h45, quando a alteração do fazer a barba muda, quebrando a rotina de mais de quarenta anos. Agora ele tem “o banheiro do casal todo para si. Decide que se barbeará logo antes de começar a preparar o almoço. Quer permanecer com aqueles pelos no rosto mais um tempo. Sente-se bem com eles”. (p. 48). Às 18h04 de um dia repleto de meditações, para além do vitrô da cozinha, espreitando o movimento do quintal, o homem solitário com o peso de uma vida às costas pensa que “a memória é como a lateral da casa, um lugar que ele pode visitar às vezes, fazer uma viagem ao momento em que aconteceu isso ou aquilo”. (p. 59).

Eis que surge A CONCRETUDE DO PESO - As arestas do peso – e o tempo se arrasta para o dia seguinte: SEXTA-FEIRA - 0h36 – o relógio da parede protagoniza o momento, justificando o título da obra, o que marca decididamente a passagem do tempo. “Vê os segundos avançando, do lado direito da tela. Cinquenta e seis. Cinquenta e sete. Cinquenta e oito. O minuto quase a virar. O tempo passa. Cinquenta e nove. Meia-noite e trinta e sete minutos”. (p. 85). Interessante que o tópico intitula-se meia-noite e trinta e seis, o leitor sente a passagem dos segundos pela fabulação e termina de ler o parágrafo no segundo imediatamente posterior. Uma saída bem interessante que a narrativa apresenta para a lentidão, em contraste com a volatibilidade da vida. 

A rotação do peso – a palavra “peso” vai ganhando contornos mais estáticos, presos à ideia de finitude, compartilhados passo a passo com o leitor. “Velório cumprido, mãe enterrada, inventário iniciado, quinta-feira o chão de Assum Preto tremeu duas vezes, e o tremor fez tombar o ônibus e um carregamento de bois. Sessenta cabeças soltas pela cidade. O primeiro tremor só foi sentido ao redor da Praia do Meio; o segundo, na cidade inteira”. (p.89).

Interessante como ao revelar o conteúdo da carga do caminhão tombado, imediatamente se forma na cabeça do leitor uma ligação estreita com o início da história. O homem com duas facas amolando-as de uma só vez enquanto se prepara para cortar os bifes para o almoço em que a filha (mais uma vez) não estará presente. A ideia de uma “poeira gestante” (p. 89) parece povoar o imaginário. Somos pó, sem dúvida, e a ele voltaremos. “O chão tremeu no horário exato em que o telefone tocou, dois dias antes, anunciando a morte de mamãe”. (p. 91). A constância do peso – “... a cada dia, meia-noite e trinta e sete minutos, ela bate com o rabo na areia”. (p. 97). A cada batida, a cidade treme.

DEZ ANOS DEPOIS - Depositar a pedra sobre o túmulo - MAIS UM DIA – A passagem do tempo dilacerada com a quebra do relógio esmiúça esse esgarçamento do ser, mas não a humanidade. A ideia de culpa apenas tangencia a saudade, o peso é aliviado pelo esgotamento da memória que marca a ideia bem resolvida por Manuel Bandeira em seu primeiro livro de poemas: A cinza das horas, de 1917. 

Adriana Calcanhoto, em 1998 lança a canção “Vambora” em que propõe intertextualidade refinada com Ferreira Gullar e Manuel Bandeira. As seis estrofes da letra são introduzidas por apenas três versos, assim constituídos: “Entre por essa porta agora / Ainda tem o seu perfume pela casa / Ainda tem o seu perfume pela casa / Entre por essa porta agora / Ainda tem o seu perfume pela casa / Ainda tem o sue perfume pela casa”. As estrofes dois e três; cinco e seis são encerradas em paralelismo sintático e semântico da seguinte forma: / Quando tem o seu cheiro / Dentro de um livro / Dentro da noite veloz / (estrofe 2); Quando tem o seu cheiro / Dentro de um livro / Na cinza das horas / (estrofe 3); e a estrutura acima se repete nas estrofes 4 e 5.  

A noite veloz, de Ferreira Gullar, apresenta-se como um poema neomodernista, ou pós-moderno como queiram os críticos, ao passo que a remissão a Manuel Bandeira mantém um dos pés na estrutura parnasiana no longínquo ano de 1917. A posição da humanidade acerca da morte, ainda que a longevidade de hoje seja um acontecimento parece não alterar em nada a insatisfação pela finitude da vida. Nem mesmo Augusto dos Anjos para dar conta de tanto dissabor. 

“O funeral da baleia” é uma viagem por esse mar de dentro. “Nós” de marinheiro a desatar tanta incredulidade nas coisas, na vida, na morte, parte integrante dessa linha de chegada, cada vez mais perto do podium montado para cada um de nós. Já escolheram seus epitáfios?


REFERÊNCIAS

PROSE, Francine. Para ler como um escritor. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. 
SAIS, Lilian. O funeral da baleia. São Paulo: Patuá, 2021

*Luiz Renato Souza Pinto, poeta, escritor, ator e professor. Colabora mensalmente com o tyrannus, através da coluna LETRAS DELAS, onde envereda por literaturas escritas por mulheres

LILIAN

Lilian Sais é escritora, poeta, pesquisadora, tradutora, editora e preparadora de textos, entre outras atividades que também desenvolve. Doutora em Letras, é paulistana e já lançou, entre outras obras, incluindo traduções, os livros "Acúmulo" (Editora Patuá - 2018), "Uma baleia nunca dorme profundamente" (Editora Urutau - 2021), além deste aqui resenhado. Teve poemas seus traduzidos para o espanhol, o inglês e o grego moderno. É uma das fundadoras da plataforma de ensino e difusão cultural Literartéria e coeditora da Revista Libertinagem, de arte e literatura erótica. Possui publicações virtuais e impressas no Brasil e em Portugal






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