CRÔNICA

A mariposa*



Pela janela da área de serviço entrou a mariposa. Chegou de manhã, contrariando hábito normalmente noturno. Veio no mesmo sentido em que soprava o vento. Ela trajava um vestido escuro, o único de seu guarda-roupa também escuro. Pequenas nódoas cinzentas espalhavam-se pela saia toda.

Às mariposas, é custoso esquecer que podem encontrar mortos pelos caminhos. Ou talvez, de certo modo, certos funerais avisem o endereço a certas mariposas. 

Depois de esvoaçar para diante, para trás, para os lados, a criaturinha enlutada deteve-se no alto da parede, adivinhando naquele lugar ideal a segurança necessária. Pousou em silêncio com suas sapatilhas de cetim negro, como pousa sobre uma página a primeira palavra de uma prosa do absurdo. 

As asas distendidas para os lados tinham no branco azulejo a base perfeita para contraste. Aproximei-me o máximo que pude no tremendo e velho interesse que de mim se apodera quando alguma coisa desusada acontece. Minha íris escureceu ainda mais. Mantive-me aquém da invisível fronteira estabelecida pelo receio de afugentá-la. Os segundos desfilaram ligeiros. Arrisquei um avanço de milímetros para melhor proveito da alma, mas, num repente ela alçou voo e ganhou o espaço lá fora. 

Pelos movimentos desordenados parecia mesmo não ter ideia das tantas rotas no céu do seu voo. Depressa foi cruzando o vazio destes tempos de assombros e carências. Suas asas polvilharam o fino carvão das escamas no semblante da manhã.

 

*Texto reproduzido do livro "Miragens" (Entrelinhas - 2022), de Lucinda Persona, que tem lançamento nesta semana. Leia sobre o livro e os detalhes do lançamento em matéria também publicada nesta edição

arthur passos

lucinda

Lucinda Persona nasceu em Arapongas (PR), mas radicou-se em Cuiabá a partir de 1965. Formada em biologia pela UFMT, já foi professora dessa universidade e também da Unic. Um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea produzida em MT, por duas vezes, ela já ganhou o Prêmio UBE (União Brasileira dos Escritores). Além de publicações em sites e antologias, já lançou "Por imenso gosto" (1995), "Ser cotidiano" (1998), "Sopa escaldante" (2001), "Leito de acaso" (2004), "Tempo comum" (2009), "Entre uma noite e outra" (2014) e "O passo do instante" (2019). Carinho e admiração é o que sinto por ela desde quando a conheci. Adoro e sempre me emociono muito com sua literatura


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