LETRAS DELAS

Estigmas e sintagmas



Li de uma pancada só o último livro de Vanessa Maranha. Publicado pela Telucazu, a coletânea traz vinte e quatro narrativas encetadas por sugestões de canções para acompanhamento. Começa pela mistura de Billie Holliday com vodca e segue o cardápio mesclando o nacional com outras nacionalidades. Optei por ignorar as referências em nome da musicalidade própria que a escrita de Maranha tem. E mais, desafiei o gênero e me pus a ler como fosse um romance: gostei! 

Logo à terceira linha do primeiro conto experimentei o sabor de um primeiro sintagma que me chamou a atenção: “constância inexistente” (p. 11) e decidi ser esse o meu guia. Iniciei a captura dos que me chamariam a atenção. Pois vieram muitos e os apresento agora, como por exemplo, ainda no primeiro conto o “refinações de contraponto” (p. 12). Não houve um único conto em que não apurei um ou outro deles para este texto.

Em Dois Sóis foi seu “chão de sólido” (p. 15), matéria forte, substrato que ainda associei ao som de Summertime, embora pensasse em Janis Joplin, ao invés de Ella Fitzgerald. Depois surgiu o “continente insalubre” (p. 16) fechando a narrativa em um nível de altos decibéis. Grenadine, por sua vez, me trouxe um “gosto incômodo” (p. 19), que se espraiou por mais duas ou três páginas quando encontra um complemento de igual peso e identidade semântica, a meu ver: “cadeado espatifado” (p. 22). 

Com a sombra acústica de Cássia Eller me veio Zé do Brasil com seu “desabalo da descida” (p. 23), clamando pela aliteração do fonema /d/ que balança a língua pelo céu da boca, por ser uma consoante linguodental e projeta os fonemas pelo vácuo implementado a partir do palato; destaco o “filão seco” (p. 24), a “laje própria” (p. 24), o “cortador de couro” (p. 25), o “vermelhão descascado” (p. 25), o “coador de café” (p. 26), “os olhos injetados” (p. 27) e o “vapor ardido” (p. 28).

Em Absinto, deparo-me com as “Sombras líquidas” (p. 29), a “intensidade verde” (p. 30), a “menina deserdada” (p. 32) e as “nuvens esbranquiçadas” (p. 33). O jogo entre o visual e o palatável proporciona um deleite estético no campo sensorial para a estabilização da leitura com as percepções de mundo. Menino do Morro é uma narrativa mais seca, espécie de realismo trágico do qual me resta a imagem de um “algarismo de estatística” (p. 36): frio, orgânico e mutilado por alguma espécie de contingência.

Ceias é como um “creme assoberbado” (p. 39) que invade o corpo das “cutículas crescidas” (p. 40), com uma “desconhecida alegria” (p.41), típico do ser que insiste em existir. Tequila surge na expectativa de mais uma dose. E tem a capacidade de “refrescar almofadas” (p. 45), como se “cerzida de ressentimento” (p. 46) pudesse promover a costura improvável de um “dizer desdizendo” (p. 47). E digo mais, tudo assim de um “vermelho absoluto” (p. 47).

A viagem segue em Abandono, com seu “portão enferrujado” (p. 51), “galhos retorcidos” (p. 53), “olhos de rancor” (p. 54), “túmulo de veludo” (p. 54), “jacaré ameaçado” (p. 55). E vem a Rosa com o “novo marido” (p. 58), a “casa desarrumada” (p. 59), “poço de agressividade” (p. 59), depois do que a Cerveja e suas “expressões perdidas” (p. 60), “azedo da manhã” (p. 61) e “bocas fermentadas” (p. 62). 

Inelutável o “primeiro impulso” (p. 65) naquele “céu de chumbo” (p. 66) em que a “sola do sapato” (p. 67) sustenta a “fada maldita” (p. 67), outra espécie de Estigma: “unhas pontiagudas” (p. 70), “risinho secreto (p. 72), “mundo ruindo” (p. 72). Entre Achados & Perdidos a “carne morrendo” (p. 73), as “águas turvas” (p. 75) e o “sol de primavera” (p. 76). E nem era ao som de Beto Guedes, mas de João Bosco. E vem a Madeleine K. com um “nome arrogante” (p. 77), “aquele sábado” (p. 78), “os maus modos” (p. 79). 

Ameixa com Metallica - boa combinação. “Movimentos automáticos” (p. 82), “raízes brancas” (p. 83), “pote de iogurte” (p. 84) e “ameixa rubra” (p. 84). Momento Mori vem com a “diversidade caudalosa” (p. 87), seguido pelo “limite corpóreo” (p. 90) de Gin. E segue pelo Natal Agreste com a “chita florida” (p. 94) e “gotas de vidro” (p. 94) embalando a “noite feliz” (p. 94). 

O último outono é de cair as folhas, apreciar os “campos intermitentes” (p. 98), os “olhares líquidos” (p. 99), “a horda de insanos” (p. 101). Nem sempre a certeza de que Dias melhores virão, embora existam e vêm com sua “negação amedrontada” (p. 104), encetada pela “corola de girassol” (p. 107), a “passos miúdos” (p. 108) em uma “aberração abominável” (p. 112) e sua “iminente vaziez” (p. 113), com “balões em motim” (p. 114).

Com a Púrpura, o espetáculo de entardecer da existência fica mais claro. O “roxo-ataúde” (p. 115) e o silêncio nervoso atravessam o piano de Schubert enquanto Karol Koncá pede passagem Às três: “torto na vida” (p. 120), “fumaça ardida” (p. 120), “donos das pedras” (p. 121); Eva e Debussy promovem um último ponto de luz. Como fosse um “prédio de vidro” (p. 123) e ao redor a “boçalização massiva” (p. 127) junto ao “alimento inexato” (p. 127).

Vanessa Maranha mora na cidade de Franca, estado de São Paulo. Região de forte vocação industrial na área de calçados. Sua literatura anda de pé em pé sustentada pela vontade de contar histórias. A dedicatória do livro é para todos aqueles que sangram e eu sei que dói. Mas que seja necessário, sempre que possível!

REFERÊNCIAS
MARANHA, Vanessa. Estigma. Jundiaí, SP: Telucazu Edições, 2021.  

*Luiz Renato Souza Pinto, poeta, escritor, ator e professor. Colabora mensalmente com o tyrannus, através da coluna LETRAS DELAS, onde envereda por literaturas escritas por mulheres

vanessa maranha

Vanessa de Oliveira Maranha Coelho nasceu em São Caetano do Sul (SP). É psicóloga e escritora. Pós- graduada em Psicanálise Lacaniana, ministra cursos para desenvolvimento humano e também oficinas literárias. Tem atuado como colaboradora de mídia impressa e já lançou vários livros, entre eles, "Contagem regressiva" (romance), "Começa em Mar" (romance) e "Pássara" (contos). Integrou várias antologias de contos, entre elas, "Mais 30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira", organizada por Luiz Ruffato ((com informações do wikipédia)

 


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